Um novo começo

 

O mês da espiritualidade (janeiro de 2018) foi marcado este ano pela arte de começar novamente. Com relação a isso, lemos na página da Web: “Como se faz isso? Deixando para trás o que aconteceu e dando uma nova chance a nós mesmos? Todos os anos, em janeiro, muitos desejam que a vida seja uma folha em branco, mas nem todos acreditam na força de um começo absolutamente novo. É pena, pois quem consegue recomeçar perdoa seus próprios erros e, assim, cria novas possibilidades. Começar de novo exige coragem, mas pode ser vantajoso para todos.”

Um novo começo… ora, o que é isso? Como se pode começar novamente? Até que ponto esse recomeço é realmente novo? Queremos muito abandonar o passado, mas, de certo modo, é como se o passado não quisesse nos abandonar, como se ele quisesse continuar decidindo as coisas por nós.

Pode-se dizer que nem mesmo um bebê recém-nascido é uma folha em branco, muito menos nós, só porque é janeiro. Nascemos sob determinadas circunstâncias, em uma família, com talentos mais ou menos marcantes, com inteligência maior ou menor, dotados de um corpo sadio ou com sérios limites físicos, mentalmente saudáveis ou com tendência a alguma dificuldade psíquica.

Por isso, podemos falar de um novo começo, mas, ao girar a chave do carro, é sempre o mesmo motor que começa a roncar. E o carro talvez tenha mais alguma bagagem no banco de trás. Aonde ir? Quanto à máquina humana, a neurociência diz que nosso cérebro, no decorrer do processo evolucionário, por um lado, tornou-se cada vez mais complexo. No entanto, ela também diz que a percepção sensorial ainda chega primeiro à parte mais antiga e geralmente mais primitiva do cérebro. Temos isso em comum com os répteis. Nos répteis, um primeiro e breve exame já determina se algo deve ser visto como seguro, perigoso, comestível ou se é uma presa.

Com base nessa primeira percepção rudimentar, uma reação primária é desencadeada nessa área primitiva do cérebro: fugir ou não. E pode-se dizer que, do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, o ser humano apenas constrói sobre essa mesma base. Ao experimentarmos os efeitos de comportamentos comprovados, ocorre no sistema límbico – a região do cérebro que temos em comum com os mamíferos – uma reação emocional, acompanhada da ressonância hormonal correspondente.

Esse padrão é registrado em uma camada inconsciente da memória. A ressonância hormonal é acoplada a experiências semelhantes como um reflexo. Assim, em um momento posterior, essa forma de reação transforma-se em um padrão de comportamento permanente, em uma ressonância condicionada. Comportamo-nos, portanto, com base em condicionamentos formados em nosso passado pessoal, aos quais nossa percepção se conectou. Consequentemente, mediante a percepção sensorial só podemos ver o que esperamos ver. A neuropsicologia e a biologia falam de um sistema fechado e completamente automático, com padrões de reação condicionados que funcionam de modo inteiramente automático em 99% do tempo. Imagens digitais do cérebro comprovaram amplamente que o comportamento já teve início muito antes de chegar à nossa consciência, embora percebamos, no neocórtex, a possibilidade de decidir ou não por determinado comportamento. Cada vez mais a neurociência é de opinião de que o livre arbítrio absolutamente não existe: o que existe é somente a ilusão da escolha.

Deixando-se de lado casos extremos, a felicidade sentida por nós praticamente não é determinada pelas circunstâncias; porém é, sobretudo, uma questão de predisposição biológica. Por isso, a forma pela qual nossas reações se exprimem depende muito das predisposições e de êxitos ou experiências dolorosas vivenciadas no passado — diferentemente dos juros nas aplicações financeiras —. Em determinadas situações, tais reações podem ter sua origem no mero instinto de sobrevivência, ou simplesmente na vontade de sentir muita felicidade e bem-estar.

Experiências dolorosas do passado reforçam a atenção para situações semelhantes no presente. E sempre vemos essas situações por toda parte. A percepção superficial do mundo ao nosso redor aciona automaticamente os sinais de alarme, e a parte primitiva do cérebro leva à tendência de evitar formas de comportamento que possam resultar em constrangimento, medo de grupos ou de pessoas em geral; leva ao desejo de estar sempre adaptado, de agir de modo amistoso ou de apenas cuidar de nós mesmos, mas pode chegar até rompantes de agressividade e neuroses obsessivas. Essencialmente todas essas reações estão baseadas no instinto de sobrevivência, ou seja, no medo da morte. Esse padrão, em si, não se sujeita a nenhum juízo de valor, pois é assim que costuma funcionar o nosso sistema biológico. Porém, podemos sofrer muito sob determinadas circunstâncias, e pessoas próximas a nós podem sofrer até muito mais.

É claro que esse princípio por trás das reações condicionadas também pode ser utilizado para obter certas mudanças de comportamento: esse é o alicerce da educação e da terapia comportamental cognitiva. O uso de determinados comportamentos e sua frequente repetição levam, em determinado momento, a um padrão de comportamento condicionado. No entanto, a estrutura subjacente do passado não se perde com isso. Ela recebe a respectiva sustentação do sistema hormonal, de modo que, no sentido biológico, é praticamente impossível escapar disso. Assim, em grande parte, “somos vividos” por nossa biologia. Em sua essência, tais processos ocorrem de modo inconsciente. Simplesmente não conseguimos fazer outra coisa. Nossa consciência, no melhor dos casos, trabalha por meio de reflexos. Ela dispõe apenas da possibilidade de interromper uma reação já iniciada (por exemplo, contar até dez antes de dizer ou fazer alguma coisa). Isso exige, entretanto, uma mindfulness uma atenção e um autodomínio que a maioria não consegue ter a cada segundo do dia.

Um pouco de autocontrole, um pouco de refinamento dos padrões comportamentais não é errado, é claro, mas nos perguntamos se é saudável corrigir-se e conter-se o dia todo. Temos certos talentos e tendências. Supondo que conseguíssemos mudar constantemente, então seríamos apenas outra pessoa, e isso, em princípio, não faria diferença.

Mudança
Existem inúmeros e grandes males psíquicos e físicos no mundo. Quanto sofrimento as pessoas conseguem causar umas às outras e a si mesmas! Isso sem falar de todo o sofrimento no reino animal. Mas não vamos nos aprofundar nessa questão. Tentaremos dar um viés positivo a tudo isso.

 

In quiet desperation, como dizem os ingleses, em silencioso desespero, porque, senão, a vida não seria suportável! Felizmente, existem também muitas coisas bonitas – coisas que podem nos fazer extraordinariamente felizes por um momento e nos comover muito, por sua beleza, desde que tenhamos olhos para ela. São momentos plenos de amor, afeto e solidariedade.

De fato: que dádiva maravilhosa é a vida!

O que acontece com frequência é sairmos das experiências com o coração partido, decepcionados, desesperados, desiludidos. Fazemos um esforço para dominar-nos e começamos de novo. Damos um impulso, e tudo gira como sempre foi. Começamos de novo, e de novo, e de novo…

As coisas sempre acontecem de modo diferente do que pensamos. E, no final das contas, tudo volta ao ponto zero, numa infinita repetição de situações mais ou menos semelhantes, baseadas nos fragmentos do passado. You win some, you lose some (Assim se ganha, assim se perde).

Afinal, por nós espera o mesmo fim: velhice, doença e morte – as três coisas que levaram o príncipe Siddhartha Gautama, o futuro Buda, a deixar seu palácio para refletir sobre a libertação desse giro da roda. Quem acredita em carma e reencarnação logo fará um novo começo na próxima vida, e depois um outro, e mais um… Decepção, desilusão, repetição sem fim, vaidade e correr atrás do vento. Não precisamos disso. Não obstante, temos de passar por isso de qualquer modo.

Mesmo assim, queremos tratar desse assunto hoje mais uma vez!

Mas não com a intenção de deixar ninguém deprimido. Não! Pois não desejaríamos falar sobre isso se não houvesse uma possibilidade de libertação, se não pudéssemos mostrar uma perspectiva.

Felizmente existe uma perspectiva libertadora. Em poucas palavras: basta querer!

Porque — independente do que afirma a neurociência —, existe de fato um livre arbítrio! Mas não nos referimos ao “livre” arbítrio de poder escolher o que queremos ou demonstrar determinada atitude.

Não, gostaríamos de dirigir a atenção para a consciência e capacidade humana de reagir espontaneamente, cada vez mais à luz espiritual que aflui verticalmente, ao invés de reagir à vida horizontal – como acontece com a maioria das pessoas – até que essa reação seja contínua. É disso que queremos tratar neste artigo: de um recomeço efetivo no âmbito do “mês da espiritualidade”, isto é, com base na espiritualidade. A palavra “espiritualidade” deriva do termo latino spiritus, que significa espírito ou força espiritual. Um novo começo que não se limite a um mês, mas que seja pela vida inteira e mesmo além dela. Em primeiro lugar, é preciso dizer com toda a clareza que o mencionado “aprisionamento biológico” é muito real. Mas, contrariamente ao que a ciência materialista e que se intitula moderna nos quer fazer crer, afirmamos que esse ainda não é o quadro completo.

A situação é pior ainda!

Somos mais “vividos” e aprisionados do que talvez tenhamos pensado. Aliás, estamos conectados uns aos outros e com o mundo ao nosso redor por meio de todo tipo de laços imateriais, por meio do carma, que é a lei de causa e efeito. Além disso, existe toda espécie de entidades sutis e concentrações de forças. Vivemos disso e elas também vivem às nossas custas, tanto no plano individual como coletivo. Essas concentrações de forças pretendem manter o engano e a ilusão nos quais a humanidade vive. Elas têm interesse nessa manutenção porque sua própria sobrevivência depende disso. Portanto, existe uma influência consciente sobre o que acontece conosco, uma influência que parte das regiões sutis e atua sobre a vida na Terra.

Aí não há nada de espiritual, nada de elevado a ser descoberto, por mais fantástico que possa parecer. Como diz Buda: “tudo não passa de Maya” – isto é, “ilusão” ou “magia”, engano e fantasia. Maya é um conceito espiritual com o sentido de que “aquilo que existe, transforma-se continuamente e, por isso, é irreal espiritualmente”. Trata-se de uma força ou princípio que oculta o verdadeiro caráter da realidade espiritual.

E, no entanto, no budismo, Maya é também o nome da mãe de Gautama Buda, o Iluminado. Ao que tudo indica, a iluminação surge de Maya.

O conceito Maya, em sânscrito, está estreitamente ligado à palavra Mara. Esta provém da antiga raiz indo-europeia mer, que significa “morrer”.

Na mitologia budista, Mara é a personificação de todas as forças que se opõem à iluminação: é o demônio que tentava desencaminhar Buda com visões de mulheres bonitas. Em diversas lendas, as filhas de Mara muitas vezes são associadas à morte, ao renascimento e à nostalgia.

É claro que queremos encarar isso agora!

Embora trate-se aqui de criaturas e aparições celestes, todas pertencem ao giro horizontal da roda, à agitação e à ilusão dos sentidos.

 

Não nos deixemos iludir, não nos deixemos persuadir. Um recomeço verdadeiramente novo sempre tem início de dentro para fora, com base no reconhecimento interior, em uma reflexão interior sobre a luz vertical que nos acena. Ela vem do coração que se tornou silencioso.

E o que é mais silencioso do que um coração realmente partido, realmente destroçado? Um coração que vem sendo sacudido pela vida, pelo carma, por muito e muito tempo e que já não é capaz de mais nada, a não ser bater em silenciosa entrega?

Essa entrega, porém, não precisa assumir formas necessariamente dramáticas. Simplesmente já não desejamos dar uma virada positiva às situações enfrentadas. Porque estamos além da ilusão e do engano: estamos desiludidos e desenganados.

Desilusão! Assim, a magia do engano e da ilusão é desmascarada – desmistificada. Tudo é apenas Maya. Já não há mais respostas. Mas, justamente nesse momento o coração olha por um instante através de outra janela para algo totalmente diferente, incrivelmente sutil, que está além do horizonte do que é conhecido. O coração não pode e não deseja nada, a não ser abrir-se para essa nova janela! Então, dentro de nós acontece algo desconhecido, inesperado. Ou talvez surja, em um momento velado, um pensamento secreto, que mal ousamos exprimir. E agora compreendemos por que Paulo escreveu em sua Carta aos Hebreus:

Não endureçais vossos corações, como na provocação, no dia da tentação no deserto.

É justamente nessa época – nos dias da tentação no deserto, da amargura, do desânimo, antes de conseguirmos nos restabelecer, nesses dias em que ainda não fizemos nenhuma mudança – que a lama da vida desce até o fundo da fonte! A luz vertical atinge as primeiras folhas tenras da haste do lótus; ele cresce lentamente e vai subindo através da água turva até irromper na superfície da água, e é então que sua radiante corola desabrocha. Ah, como seria bom se, pelo menos por um instante, não remexêssemos novamente a lama horizontal!

Isso é ser um rosa-cruz!
A cruz somos você e eu.
A cruz, a cruz dourada, simboliza a luz vertical que deseja entrar em nossa lama horizontal.

As hastes horizontal e vertical encontram-se no coração da cruz. É aí que a rosa pode desabrochar: em você, em mim, no seu coração e no meu, unem-se o que é horizontal e o que é vertical, isto é, o que é biológico, terreno, e o que é espiritual.

Agora, a rosa simbólica na cruz ainda está em botão.

Mas quando conseguirmos deixar a lama da vida horizontal sedimentar-se no fundo e, finalmente, houver claridade dentro de nós, a rosa florescerá inteiramente e o lótus refletirá, radiante, a luz vertical.

Esse botão de rosa pode ser encontrado no coração da cruz, assim como em seu coração. Só então pode-se falar de uma real renovação. Real, íntima, para você mesmo e em você.

E onde as pessoas vivem com base nessa alma renovada, com base nessa inspiração vertical, e se reúnem sobre tal fundamento, surge um foco de luz, no qual quem o desejar pode realmente sair da lama, elevar-se do horizontal ao vertical. Carregados com a força espiritual que sempre irradia como luz vertical do sol, os libertos descem novamente ao plano horizontal para ajudar os demais a fazer o que eles realizaram.

Isso é a Rosa-Cruz! Um verdadeiro reinicio, a partir de uma fonte completamente diferente: a radiação de amor do Espírito. ◊

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Pentagrama no 2 / 2018

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