O Mestre da Pedra

Meu amigo, minha amiga…

Se você estiver lendo estas linhas é porque encontrou minha história, meu relato sobre uma pergunta que mudou radicalmente minha vida: “O que o mundo realmente espera de mim?” 

NARRATIVA DE VIAGEM
E DIÁLOGO
O sol acaba de se pôr, e lá no alto do céu uma bela cor vermelho-violeta ilumina as nuvens. O terreno é rochoso: a terra avermelhada está toda recoberta por longas folhas de grama e alguns arbustos aqui e ali. Atrás de mim estão as colinas que acabei de atravessar hoje. Permaneço imóvel e olho à minha volta. Tudo está em silêncio e é muito lindo, de tirar o fôlego! Estou completamente só nesta vasta paisagem. Ninguém vem aqui. Na verdade, eu deveria continuar a andar, mas minhas pernas cansadas e a beleza do pôr-do-sol me dão vontade de ir atrás de um lugar para me sentar um pouquinho só para aproveitar o espetáculo e descansar. Sim: lá embaixo, aquele rochedo de três metros de altura é um ótimo lugar.
E agora aqui estou, sentado sobre ele. Realmente é muito louco ver como uma simples decisão pode mudar nossa vida tão radicalmente! Tiro minha mochila das costas e a coloco ao meu lado. Bebo um gole de água morna. Em algum lugar do céu um passarinho começa a cantar.
De repente o céu fica incrivelmente escuro e eu retomo meu caminho enquanto tomo consciência de que, lá no fundo de meu ser, uma inquietude começa a tomar conta de mim.
Por quanto tempo ainda terei de caminhar nesta vasta planície? Pensava que a cidade ficasse mais perto das colinas. Preciso achar um lugar para dormir, um lugar onde eu possa me esticar dentro de meu saco de dormir, que ainda está enrolado embaixo de minha mochila.
Mais uma vez dou uma olhada à minha volta. O que é aquilo? Uma luzinha, lá embaixo?
Na escuridão que aumenta cada vez mais, vejo lá longe, à direita, minúsculos pontos de luz que desenham cada vez mais claramente a silhueta da cidade.
De repente, me dou conta de que amanhã estarei lá. Amanhã será o grande dia! O dia em que vou deixar para trás a vida que vivi até hoje. E já nem sei se terei coragem de fazer isso!
Jan van Rijckenborgh:
Talvez já se tenha tornado claro para vossa consciência que há dois campos atmosféricos. Não um aqui e outro ali, mas presentes simultânea e existencialmente, assim como também há dois campos eletromagnéticos existencialmente presentes. Uma condição caracteriza o campo de queda e graça, o campo de tolerância e de assistência, a outra condição, o absoluto e a divindade. Ambas as condições estão presentes no mesmo instante, no mesmo espaço, aqui e agora.
Não existe lugar que possa ser apontado onde o mar da divina plenitude de vida não esteja presente. O reino de Deus e sua atmosfera de vida estão mais próximos do que mãos e pés; sim, eles estão dentro de vós.
E os grandes, que testemunham dessa divina plenitude de vida, nos dizem: E eis que eu estou convosco […] até a consumação dos séculos! No meio de vós, está alguém que não conheceis. De graça lhe darei da fonte da água da vida. Se quereis beber dessa água da vida e viver e existir na outra atmosfera, tereis de abandonar vosso próprio mundo incidental e acabar com vosso mundo atual. Vai, vende tudo o que tens e segue-me!
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Sabe como eu cheguei aqui? A semana passada eu estava na classe, esparramado na carteira e escutando o professor, que estava fazendo um discurso sobre “a importância de escolhermos corretamente cada matéria, pois são elas que determinam nosso futuro” ou algo parecido…
Imaginem: eu estava quase dormindo, meio entorpecido. Sabe como é, estava muito calor naquele dia e, por uma razão ou outra, os sons pareciam se tornar cada vez mais distantes.
Eu me esparramei ainda mais na carteira e meus pensamentos ficaram vagando pela sala, junto com pedaços de frases do professor.
Se eu tivesse fechado os olhos, com certeza teria dormido!
“O importante é que…” Minha cabeça sonolenta não estava nem aí. “Escolha!”, bah, coisa nenhuma! “O futuro depende de sua escolha!” Eu só olhava para a cara do professor e via as gotas de suor escorrendo bem devagar pelo seu queixo. Sua boca estava se movendo, mas ao mesmo tempo, tudo ia deslizando pra cima de mim…
E o mais estranho foi quando uma pergunta apareceu do nada no meio nos meus pensamentos.
Daquela hora em diante essa pergunta nunca mais me deixou em paz: “O que o mundo espera de mim?”
De repente eu vi a mim mesmo, do alto, esparramado na classe enquanto o professor tentava atrair o interesse de sua plateia atordoada.
Fui atravessado por uma onda de choque. Afinal de contas, o que é que eu faço todos os dias e o que vou fazer no futuro? O que é que o mundo quer de mim? Que eu vá à escola? Que eu seja educado e gentil? Que eu tenha um smartphone, como todo mundo? Que eu pratique esporte e dê uma festa de aniversário todo ano? Que eu economize dinheiro e arrume meu quarto? Que eu coma com garfo e faca e termine de comer para ter direito à sobremesa?
 E o que o mundo vai esperar de mim quando eu for mais velho? Que eu tenha de trabalhar das 8h às 18h todos os dias? Que eu compre uma casa e sempre corte a grama do jardim? Que eu assista a reuniões importantes? Que eu esteja por dentro de tudo o que acontece no mundo e me posicione pró ou contra determinadas coisas? Que eu tenha sucesso?
Talvez milhares de opções do que poderia acontecer no mundo à minha volta tenham atravessado minha mente naquela tarde. Mas a única coisa que eu ainda me perguntava era: “Será isso o que o mundo espera de mim?” Quer dizer, espera de Verdade?
Faço mil e uma coisas mais ou menos divertidas, legais ou que me dão tédio. Mas sinto que são apenas algumas coisas que faço para matar o tempo. É como se eu fizesse tudo isso esperando por algo mais verdadeiro, essencial. E então eu comecei a refletir – a refletir de verdade!
 
Jan van Rijckenborgh:
Entretanto, a fim de abandonar a prisão de vosso próprio mundo incidental, deveis transformar-vos em mestre da pedra; tereis de lançar a pedra fundamental de um novo templo.
Para chegar a ser mestre, porém, tereis primeiro de ser aprendiz, aprendiz de construtor de templos!
Escolhidos para isso pela experiência, tereis aprendido a conhecer perfeitamente a natureza de vossa prisão dialética e tereis descoberto que esse mundo é, ao mesmo tempo, um local de graça, porque a Gnosis não deseja vosso declínio, ela anseia socorrer-vos. Por conseguinte, existe a Fraternidade Universal, servindo de ponte sobre o abismo entre as duas atmosferas de vida. Ela vos traz um pouco da água viva original, em diferentes formas, adaptadas a vosso estado de ser. Não podeis nem tendes de transpor tudo de um salto.
Há irmãos e irmãs dispostos a ajudar-vos em cada passo que vos propuserdes a dar e que colocam vosso pé sobre as pedras da ponte que conduz de vosso atual estado de ser ao outro. Por que deveríeis ficar amedrontados e assustados? Ninguém vos forçaria a galgar um degrau se ainda não estivésseis capacitados a fazê-lo. Irmão algum vos coagiria. Ficai firmes sobre a pedra em que estais no momento e, quando tiverdes acumulado forças para o próximo passo, sereis auxiliados. Portanto, é dito: Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á!
Há apenas uma condição para a senda: é exigido que sejais aprendiz de construtor de templos. Então, sem dúvida alguma, tornar-vos-eis mestre da pedra.
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O ar que sobe do chão está vibrando de calor. Quando me levantei, nesta manhã, havia acordado por causa do frio. Felizmente, a cidade, que era minha meta final, parecia estar bem mais próxima! Preciso continuar, simplesmente, passo a passo. Assim, estarei lá esta noite. Você deve estar perguntando o que é que faço aqui e por que dou tudo de mim para chegar a essa cidade. Devo confessar que essa cidade tem algo que me atrai irresistivelmente. 

Você pode não acreditar, mas o mais importante para mim é que ela tem uma ponte. Em toda a extensão da cidade há um canyon, um abismo de pelo menos 1.400 metros de profundidade, formado pela erosão de um rio durante milhões de anos, como se fosse uma fita azul buscando seu caminho rumo ao abismo.
As pessoas dessa cidade construíram sobre o canyon a ponte mais esquisita que vocês podem imaginar. É uma ponte que só tem uma mão, que a gente só pode atravessar em uma direção. Ela foi construída com tirinhas de metal prateado unidas por parafusos e pequenas porcas.
Ela é um símbolo. Os habitantes da cidade construíram-na para indicar que, quando você sai da cidade, deixa para trás o mundo habitado e entra na vastidão de espaço do outro lado do canyon. É uma ponte pênsil com um contrapeso – assim, quando ela se abre, está sempre em preciso equilíbrio.
O nome dessa ponte é: “A Ponte sem Volta”. Só vamos atravessar essa ponte quando tivermos certeza de querermos deixar para trás tudo o que é velho para ir ao encontro do desconhecido.
Você conhece essa sensação de exílio, de nunca se sentir verdadeiramente “em casa”?
O que quer que o mundo parecesse estar me pedindo, jamais tive a sensação de: “Sim, é isso: esse sou eu mesmo, de verdade!”
Claro, passo um bom tempo com meus amigos e, em nossa casa tenho meu quarto confortável. Será então que o problema sou eu? Sou um pássaro esquisito que não se contenta com a vida ao seu redor? O que o mundo espera de mim? Quando eu deixo fluir a voz de minha intuição, convenço-me de que o mundo espera, sim, alguma coisa de mim. Ele me pede para agir de forma diferente, para seguir novos caminhos, para percorrer meu próprio caminho, que é único.
Quando simplifico as coisas com relação ao que me compete, só vejo duas possibilidades: ou vivo minha vida como vejo todo mundo fazer à minha volta, ou sigo meu coração e entro em um caminho de vida voltado para algo completamente diferente.
Fico tentando me imaginar em uma idade avançada, revendo meu passado: o que eu gostaria de ver em minha vida? Que tom eu gostaria de dar a ela? Todas essas coisas que vejo os adultos fazerem são realmente importantes para mim? Às vezes parece que eles perderam totalmente o rumo de seus caminhos!
E então eu soube! Eu soube o que queria fazer de minha vida. Quero viver a vida de um modo totalmente diferente! Quero deixar para trás o que é comum.
Procurei no sótão a velha mochila de meu pai. O que será que as pessoas precisam levar para o deserto? Quanto será que eu posso levar? Resolvi ir a pé – não de ônibus ou de trem. Vou atravessar lugares selvagens para, logo que chegar à cidade, poder pôr à prova minha decisão de passar pela ponte, por mais inquietante que ela seja.
Uma ponte sem volta, lançada sobre um desfiladeiro, por onde ninguém pode passar a não ser uma vez!

Será isso o que o mundo espera de mim? Quer dizer, espera de verdade?

Jan van Rijckenborgh:
O que significa ser aprendiz de construtor de templos?
Significa estar em condição de lançar a primeira pedra da nova construção do templo e de preparar essa primeira pedra de maneira correta.
Podemos ensinar-vos como fazê-lo?
Pois bem, tomai um bloco de granito, isto é, colocai-vos ante a realidade dura como o basalto de vossa existência dialética sem objetivo; colocai-vos ante esta realidade com o cinzel afiado de vossa atitude reta e de vossa determinação inabalável.
Com todas as vossas forças, entalhai nela a rosa estilizada do setenário cósmico.
Essa rosa estilizada será, então, como uma janela em vossa prisão. Através dela podereis olhar o exterior.
Através dela Fausto, de Goethe, olhou.
Através dela, Dante contemplou o Paraíso.
Através dessa rosa, o aprendiz de construtor de templos vê claramente. Através dessa janela, o aprendiz corta, cinzela e entalha a cruz.
Ele abre seu caminho, sua senda para a libertação.
Por este sinal vencerá, tal qual Christian Rosenkreuz.
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Estou andando pela cidade. Aqui e ali, algumas pessoas me seguem com o olhar. Não é nada de se espantar. Quando você atravessou o deserto durante uma semana, tem uma aparência selvagem! Rio baixinho. Meus sapatos estão marrons de tanta poeira, minha calça está manchada e meu cabelo com certeza está arrepiado. Então vejo acima de alguns prédios o primeiro vislumbre da ponte. O sol poente cria reflexos na construção prateada.
Viro a esquina. À minha frente se estende uma rua muito reta, sem casas, e no final dela há uma praça circular.
Lá, na outra extremidade da praça, ergue-se, majestosa e alta, a ponte.
Só agora percebo o quanto ela é longa, pois preciso inclinar minha cabeça completamente para trás para ver o final dela, que aponta para o alto como se fosse um dedo indicador.
Atrás de mim, ouço pés que se arrastam pelo chão. Umas dez pessoas param para me observar. Um homem pergunta:
– O que você está planejando fazer? Por que você está olhando para essa ponte? Não me diga que você quer atravessar…
Balanço a cabeça e sigo em frente, na direção da praça.
– Você sabe que não tem volta, não sabe?, grita o homem atrás de mim.
Realmente é muito estranho estar aqui.
Depois de todas as minhas reflexões, de minha decisão, depois de minha viagem através daqueles lugares selvagens, agora posso tocar as ferragens da ponte.
Pego minha caneta e escrevo as últimas frases úteis para meu relatório. Não escrevo no final, mas sim no início: “Meu amigo, minha amiga…”.
Dobro as folhas e as coloco em um envelope, que deslizo entre as pedras debaixo da ponte, para que alguém as encontre e possa lê-las.
Jan van Rijckenborgh:
Então ele coloca sua pedra ante a Gnosis e, enquanto prossegue no caminho endurístico de autoesvaziamento, conduzindo seu velho mundo a um fim, ele evoca, com o fio de suas armas, os quatro alimentos santos:
1.º IGNIS — o hidrogênio original;
2.º FLAMMA — o oxigênio da realidade divina;
3.º MATERIA — a dupla força da realização;
4.º MATER — o carbono modelador original. Ele deposita, então, sua pedra no nicho da realização, no salão superior dos arquitetos.
O que supondes que acontecerá em seguida?
Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como que de fogo, e pousou uma sobre cada um deles.
A nova atmosfera, o antigo fogo espiritual, apodera-se do peregrino e sobre ele se coloca, agora que ele transpassa com a cabeça e com o bordão a esfera da ilusão dialética e contempla a realidade da rosa estilizada. Já não a vê como símbolo, porém como posse interior, uma realidade que se lhe abre.
Seu sistema converte-se em um campo radioativo da Fraternidade.
Ele entra no campo eletromagnético original.
Mediante a colocação dessa primeira pedra, as chamas do fogo espiritual são inflamadas, e o aprendiz de construtor de templos torna-se mestre da pedra.
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Meu tempo chegou. Agora vou provar a mim mesmo que minha decisão é real. Com prudência, coloco meu pé esquerdo no primeiro trecho inclinado da ponte que se ergue bem acima de mim. Por alguns instantes nada acontece. Em seguida, um leve tremor atravessa a ponte e ela balança um pouquinho para frente. Agora, posso levantar meu pé direito da calçada e entrar completamente na ponte. E novamente ela balança um pouquinho para baixo. A ponte foi construída de tal modo que, literalmente, a cada passo percebemos o que estamos fazendo, na mesma hora. Cada passo exige um esforço: nada acontece por si só.
Somente quando damos o passo seguinte a ponte balança um pouco mais.
Lá longe, bem abaixo de mim, vejo o riacho azul, no fundo do despenhadeiro.
De uma hora para outra, meu estômago fica revirado e minhas pernas parecem ser feitas de uma borracha mole. Mas minhas mãos ainda estão fortes. Seguro o corrimão e dou mais um passo: o sentimento de fraqueza desaparece. Pois é: para ficar mais forte só é preciso continuar!
De repente vejo o outro lado que a ponte encobria de minha vista até este ponto. Estou na extremidade da ponte! Se eu der mais um passo, ela vai ficar para trás, esperando um novo passante.
 
É por tudo isto que eu anseio: liberdade, verdade, amor, amizade, solidariedade. Então, dou o passo. ◊
Há irmãos e irmãs que nos ajudam a cada passo que tentamos dar,
e nos fazem colocar os pés sobre uma pedra da ponte
que nos leva de nosso estado atual a outro estado
O início da Ponte de Sete Milhas, em Key West, Flórida

Pentagrama no 2 / 2017

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