Amor Intellectualis Dei – O amor racional por Deus

A Gnosis e a vida não podem ser separadas uma da outra: a fé e a vida, o saber interior ou o verdadeiro conhecimento e a vida são um. Mas o conhecimento interior ou Gnosis não acontece automaticamente; ele nasce da necessidade e da maturidade da existência.

O famoso filósofo Baruch Espinoza diferencia em sua filosofia três tipos de conhecimento.
Em sua Ética, ele descreve:
1. O conhecimento proveniente das impressões sensoriais sem ou com pouca afinidade mútua;
2. O conhecimento racional, vindo da razão: as percepções sensoriais são ordenadas e recriadas até formarem um conjunto coerente; os opostos que caracterizam a vida sensorial são identificados e mantidos separados. Desenvolve-se assim a consciência que Espinoza designa de entendimento adequado ou o verdadeiro conhecimento das propriedades das coisas;
3. O conhecimento intuitivo, que é a mais elevada forma de conhecimento: as propriedades das coisas são deduzidas da justa maneira e são mantidas em relação essencial com a natureza una e indivisível.
Os opostos, o maior e o menor possível, coincidem.
Essa terceira – que é a mais elevada forma de conhecimento – não comporta divisão nem contradição.
Não confundamos essa forma de conhecimento com o que propõe o filósofo Hegel em sua dialética, na qual a tese e a antítese conduzem à síntese e, portanto, a um ponto cada vez mais alto – e o homem evolui de modo cada vez mais perfeito até a perfeição da vida e a realização. Esse tipo de conhecimento citado por Hegel constitui-se na evolução do homem natural enquadrada na vida dialética.
Na terceira forma de conhecimento, Deus é a Gnosis, o objeto mais elevado do conhecimento é, o Absoluto, que não comporta nenhum oposto em si. Deus é Aquele que está oculto. Ele é desconhecido para a consciência dialética elaborada com base nos contrários, a partir de uma mistura e de um emaranhado composto de bem e de mal.
Espinoza chama essa forma de conhecimento de “amor racional por Deus”, o Amor Intellectualis Dei. Por assim dizer, não somos nós que pensamos as coisas, mas um novo princípio espiritual que se revela, o Logos, que pensa as coisas em nós.
As três formas de conhecimento correspondem aos três tipos de homens: os gnósticos dos primeiros tempos falavam do homem hílico, do homem psíquico e do homem pneumático.
Coesão
Devemos, no entanto, prestar atenção à coesão existente entre as três formas de conhecimento: podemos trazer essas três formas de conhecimento em nós. Distinguimos:
1. O homem concreto orientado para o materialismo;
2. O homem que, baseado em muitas experiências, torna-se sensível à alma e tenta seguir suas leis; e
3. O homem alma-espírito, por meio do qual a nova alma se religa permanentemente a Deus, ao campo de luz da Gnosis. Esta última forma de conhecimento podemos chamar também de Gnosis. O conhecimento intuitivo tem sua fonte no coração e surge do coração. É a eclosão da rosa do coração que, a partir de nossa busca, nosso anseio voltado para a verdadeira vida, para a verdadeira unidade, pode transmitir-nos sua força, seu poder virginal e autêntico e sua graça.
No coração, na centelha divina, encontra-se todo o potencial espiritual que, como força atômica, pode iniciar sua atividade transmutadora e transfigurista assim que haja uma abertura, uma receptividade. Essa receptividade ocorrerá quando o homem tiver sondado e provado o amargor da vida horizontal, temporal e tiver, em princípio, se desviado dela.
Abertura, receptividade, compreensão e discernimento são requisitos necessários e indispensáveis. Uma intensa atividade deve também se desenvolver a fim de que a poderosa força de irradiação gnóstica possa se desdobrar e se fazer valer em toda a sua plenitude. Assim, o ser estará totalmente voltado para isso, com sua consciência, alma e corpo.
Portanto, o amor racional por Deus significa que o ser humano envolvido sabe que o seu estado de ser está completamente conectado e permanentemente sintonizado com a elevada ordem das leis da Gnosis.
Não podemos aqui nos satisfazer com um conhecimento apenas literário, ou apenas observar ou tomar conhecimento de certos aspectos espirituais ou históricos da Gnosis julgados interessantes e dignos de serem estudados. É preciso haver um engajamento total para esse encontro, para enfrentarmos dentro de nós mesmos esses dois mundos absolutamente opostos, essas duas atividades de força e irradiação contrárias, essas duas naturezas. Metaforicamente, é o encontro do dia e da noite.
À noite tudo parece entrelaçado, não há imagens nítidas, tudo é impreciso, confuso, emaranhado; ninguém sabe o caminho, ninguém pode nos aconselhar. Durante o dia, ao contrário, tudo é claro, evidente, transparente, límpido e positivo. Todos os dois, o dia e a noite, estão presentes no homem. Isso implica que um importante conflito interior, uma luta interior, deve acontecer. No entanto, é evidente que homem algum está imediatamente preparado para isso, pois ele nasce e cresce na natureza do espaço-tempo, uma natureza onde tudo se mostra em oposição, em divisão e em separação segundo o tempo e o espaço, ao passo que as forças da Gnosis são, ao contrário, atemporais, indivisas, sem oposição, imaculadas e verdadeiras.
Por essa razão, a Luz libertadora – o verdadeiro e o bem – nasce e vai desenvolver sua atividade num mundo ainda muito sombrio. Quando chegamos a esse nível precisamos estar em guarda, pois do contrário mentiremos para nós mesmos.
A Gnosis inicia sua atividade plena de graça em Belém, onde a estrela da nova alma se mostra agora no campo de respiração do homem. O caminho que então se inicia, essa via dolorosa, leva ao Gólgota, onde a Luz, após o caminho da cruz (neste nível bem podemos chamar de caminho de cruz com rosas) vai penetrar até o santuário da cabeça.
A cruz da natureza é aqui mudada em cruz de luz, na qual a rosa, a alma renascida, floresce em inexprimível beleza.
A penetração da Gnosis na consciência é uma graça intensa. A fé e a vida, o saber interior ou o verdadeiro conhecimento e a vida são um.
Mas o conhecimento interior ou Gnosis não acontece automaticamente, porém nasce da maturidade de vida. O conhecimento teórico pertence à “noite”, à ignorância, assim como o conhecimento oculto, esotérico e místico. A Gnosis é uma necessidade no plano de vida empreendido pelo Logos. A teoria, no entanto, não tem nenhum fundamento. O plano do Logos é tudo aquilo que traz em si a necessidade e o “Único Bem”.
Viver no sentido da Gnosis é realizar o plano de desenvolvimento que vem do Logos, impelido pela necessidade!
Por isso o homem ignorante de fato existe, mas não vive verdadeiramente; ele é vivido.
A Gnosis, o Verdadeiro e o Bom, a terceira forma de conhecimento, torna-se ativa, real, como Força, na alma receptiva e preparada para isso. Mas o início deve de fato ser conquistado na vida dialética, na força da Rosa. Por isso a Gnosis, o Amor Intellectualis Dei, não significa apenas um reconhecimento, mas ainda a quebra e a aniquilação de muitos obstáculos: confusão, emaranhamento, obscuridade, características da “noite”. Isso diz respeito entre outras coisas aos chavões negativos do sentimento e do pensamento próprios da personalidade da natureza: morosidade, pessimismo, ciúme, rivalidade, inveja, ódio, aversão, crítica, desespero e outros.
O homem “que sabe” mostrará em sua vida uma alegria e uma serenidade interior que nada pode perturbar, uma vez que está voltado com toda sua alma à realização do plano do Logos, que compreende tudo e todos.
Tudo que pertence a esse plano, tudo o que diz respeito a ele, é lógico e necessário; cada manifestação se torna um devir e se vê impulsionada até o desenvolvimento do plano imanente. É a força atuante da eternidade no tempo.
Termos consciência de nós mesmos como existências separadas significa que somos prisioneiros das representações ligadas ao tempo, que levam ao conhecimento parcial e desconcertante; esse é o primeiro tipo de conhecimento, e o estado de vida correspondente é fundamentalmente caracterizado pelos conflitos e pelas divisões. A Razão Pura aspira à totalidade eterna, no entanto, os desejos e a orientação do homem na vida sensorial persistirão enquanto ele enxergar as coisas de maneira provisória e parcial, enquanto sua consciência permanecer voltada para a “noite”.
A felicidade e a alegria do ser humano encontram-se na
na contemplação, na percepção da adversidade das coisas mediante a inexorabilidade da Natureza divina – ou seja, quando percebemos as coisas à luz da eternidade, ou quando enxergamos Deus na natureza. Sim, quando contemplamos tudo no Todo.
O poeta, o artista, o músico, as almas sensíveis, todos tentam traduzir essa inexorabilidade que escreve suas leis no e através do éter do mundo por meio do som, da cor, do ritmo, da relação.
O cientista busca a essência querendo agarrar e definir suas leis com fórmulas para se tornar “mestre da natureza”. No entanto, verificamos que a plenitude do Amor Intellectualis Dei não tem forma, ela é imperceptível para o homem sensorial. Ela se manifesta somente no estado de espírito de quem se tornou totalmente silencioso. Hermes assim o resume: “O que está no Espírito não pode ser visto senão pelo olho do espírito. […] Procura, ó alma, o verdadeiro entendimento, aprendendo a compreender a manifestação e a essência das coisas, mas negligencia a quantidade e a qualidade delas. […] A manifestação e a essência das coisas são simples, e a alma pode apreendê-las imediatamente, sem intermediário, mas a quantidade e a qualidade são múltiplas e limitadas pelo espaço e pelo tempo”. (Do castigo da alma, pp.15-16)
O que é visto no espaço-tempo como uma cadeia ininterrupta de causas e efeitos é, portanto, do ponto de vista do éter, a eternidade, a vontade inexorável, eterna e inquebrantável de Deus. Diante desse esclarecimento, a ilusão da existência da liberdade no tempo cede espaço à certeza de que libertar-se do tempo é possível. Mediante esse saber, esse conhecimento, a alma está pronta para se religar ininterruptamente à Luz espiritual do mundo da alma, que penetra e contém o universo e a criatura. É assim que a veste áurea de núpcias é tecida!
Vimos que essa Luz se torna conhecida primeiramente no coração, onde se situa o núcleo inalterado da consciência da Gnosis. Falamos exatamente de três formas de conhecimento. Além disso, é importante levar em conta o fato de que não há separação entre essas três formas – não ocorre primeiro isso e depois aquilo, e assim por diante. Todas as formas de conhecimento até mesmo a mais elevada forma considerada por Espinoza, o Amor Intellectualis Dei, vivem em nós. É bom estarmos conscientes disso!
A primeira forma de que falamos compreende as ideias, as opiniões e as representações obtidas por “ouvir dizer”, a informação proveniente de impressões sensoriais arbitrárias e incoerentes. Ela está presente, mas não é um elemento ativo em nossa consciência. Na verdade, é uma fonte passiva suscetível de prejulgamentos, de opiniões e suposições. A “Luz do dia”, clara, evidente e transparente – que é a condição vital para o desenvolvimento da alma é obscurecida e entravada por ela. Essa forma de conhecimento totalmente fortuita é largamente difundida. Essa é a “sabedoria” mencionada por Paulo como “loucura diante de Deus”. Já o conhecimento do segundo tipo, o conhecimento racional, é algo bem diferente. Esse conhecimento é uma fonte de riqueza espiritual dinâmica, que se aprofunda continuamente e flui de modo positivo e sempre ativo. Como assinalamos acima, obtemos esse conhecimento, quando formamos uma ordem verdadeira, um todo coerente com base na Razão, nas percepções sensoriais, ideias e informações. No entanto, é importante compreender e reter o conhecimento do primeiro tipo, quer dizer, as ideias arbitrárias, as opiniões, as suposições, as ilusões e as imaginações.
Pensem aqui no wish fulthinking (literalmente “pensamento desejoso” ou em tradução livre “vontade de acreditar”), que é a tendência a aceitar como verdadeiro o que por nossa vontade desejaríamos e quereríamos ver e crer. É perder o olhar objetivo das coisas com a tendência de pensar que nossa “realidade”, nosso “ponto de vista”, nossa “sabedoria” poderiam ser aplicados a tudo e a todos. Essas coisas nos impregnam, formam uma prisão mental e emocional no interior das estruturas abstratas e da noite. Elas são também fontes escondidas de cólera, maldade, crítica, amargura, agressão, irritação, medo, violência e luta. Nelas, não podemos descobrir nenhuma ordem a não ser a arbitrariedade, e sabemos bem como o homem da massa é perseguido e vencido por todos esses sentimentos. É isso que faz Platão dizer: “Quando a noite se estende sobre as coisas, os olhos parecem ter perdido seu poder de percepção. Quando a alma está voltada para o que é semi-obscuro (ao que nasce e perece em seguida), então ela não possui nenhum conhecimento, mas somente opiniões (doxa). A visão da alma fica fraca e ela parece estar despojada de toda razão”. Adquirimos o conhecimento do segundo tipo unicamente pela “percepção”. Não há ideias pré-concebidas, opiniões, pensamentos em segundo plano ou conceitos imaginados antecipadamente. Krishnamurti designava esse conhecimento pela expressão “observar sem opção”. Lemos no Livro da Natureza, respiramos nessas atmosferas límpidas onde a alma do mundo derrama suas verdadeiras melodias plenas de misericórdia. Sabemos bem que o condicionamento da consciência colore nossas percepções, tornando-as errôneas, não puras; elas inquietam a consciência e nos extraviam, ficamos vagando sem nenhuma diretriz em um labirinto de confusão e de paradoxo.
Como um ser humano pode fazer luzir sua luz interior quando ele mesmo está no meio da confusão? “Perceber isso sem julgamento” purifica-o de muita oxidação, de depósitos fixados na alma.
O terceiro tipo de conhecimento, o “amor racional por Deus” é esse conhecimento, essa Gnosis da qual não podemos duvidar, que é, em todas as circunstâncias, clara, evidente, completa e jamais sujeita a mal-entendidos. É um conhecimento que não somos obrigados a explicar nem comentar de modo racional e intelectual; sua verdade é compreendida diretamente.
Portanto, a partir do coração, o fogo se eleva desse verdadeiro conhecimento para o alto e ilumina no santuário da cabeça as sete luzes do candelabro.
Essa Luz irradia em resposta ao toque poderoso da alma do Mundo. Essa Luz, então acesa, é a luz triunfante de Cristo. À medida que vai compreendendo tudo que ela é capaz de fazer em nosso mundo obscuro, o ser humano se esforçará para se purificar do falso conhecimento que mantém a ação das trevas. ◊
O conhecimento interior ou Gnosis não acontece automaticamente,
ele nasce da maturidade de vida

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“O OBJETIVO DO ESTADO É A LIBERDADE”
Em 2008, o artista Nicolas Dings ofereceu um novo manto muito original e contemporâneo ao ser humano Espinoza. Sua escultura é uma tri-unidade: um pódio, um icosaedro e a imagem de uma pessoa estão indissociavelmente ligados. Assim como Newton, Galileu e Kepler queriam apreender o universo com a ajuda de novas leis, Espinoza queria conceber e identificar o universo espiritual em sua Ética. A figura de bronze do filósofo está envolta em um manto provido de atributos referentes a seu pensamento sobre tolerância, liberdade de culto e liberdade de opinião – vejam aí uma marca de nossa sociedade atual multiforme, uma vez que Espinoza era também um filho de imigrantes. Pássaros, flores e rosas decoram as dobras do manto, caracterizando a diversidade universal. A rosa: no sinete de Espinoza estava gravada uma rosa coroada pela palavra caute (prudência). A rosa, a metáfora universal que designa a beleza, tem, no entanto, espinhos (literalmente, Espinoza também quer dizer espinho).
O pensamento do filósofo é representado por um icosaedro de pedra (não visível na foto), uma forma geométrica composta de vinte triângulos, de doze pontas angulares e de trinta arestas; o icosaedro está talhado em granito e refere-se à profissão de polidor de lentes.
Ao lado do pódio está gravado o nome de Espinoza e a citação: “o objetivo do Estado é a liberdade”.
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Pentagrama no 2 / 2017

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