A outra realidade da rosa

 

Seu perfume?
Talvez possamos começar por aí. Por que não? Em Rennes, na Bretanha, encontra-se o maior roseiral da Europa, organizado em segmentos concêntricos. Entrar ali é vivenciar uma verdadeira aventura de rosas, cercado de fragrâncias inebriantes, embora haja rosas que exalem pouco ou nenhum perfume. Inalar e sentir a flor situada no centro bem poderia ser o começo da realidade das rosas.
Contudo, apesar da fragrância e de seu efeito sobre o cérebro, para muitos o início é como um sonho, frequentemente um sonho de Vênus, símbolo do amor.

Em sua história Doornroosje (A Bela Adormecida), da coletânea As últimas histórias do século, Paul Biegel situa o início da realidade da rosa em uma região onírica, onde o marujo Gerrit se vê em um enorme pavilhão com piso ladrilhado e cobertura em forma de pirâmide. Um corredor revestido de pedra o conduz a um salão cheio de gente. Mas ninguém fala, ninguém se movimenta. Não há vida nas pessoas nesse salão?

Silêncio
Nessa primeira investigação da realidade da rosa, um aspecto importante é o da estática: uma situação de absoluta quietude. Mas esse aspecto permanecerá? A realidade da rosa, que está tão próxima, é tão calma, tão sem vida?

Vida
Na história de Paul Biegel, Vênus intervém novamente: o marujo Gerrit vê, no meio do grupo, uma jovem de indescritível beleza – tão bela que seu coração de marinheiro logo bate mais forte. Mas também ela não se movimenta, não fala – e a cena vivente assume algo de fantasmagórico com o silêncio mortal e o torpor no qual todas aquelas pessoas estão mergulhadas.
Gerrit dirige-se lentamente à beldade feminina querendo tocá-la nos ombros.

E, de repente, o salão é inundado por um burburinho, por alegria, risos e conversas! A outra realidade da rosa mostra-se, de súbito, cheia de vida: tudo porque o herói deixou-se levar pela beleza e, principalmente, pelo amor.

No livro As núpcias alquímicas de Christian Rosenkreuz vemos uma cena semelhante: o pesquisador curioso do século 17, Christian Rosenkreuz (Cristão Rosa-Cruz), observa a figura nua de Vênus em sua plena beleza. E, por esse motivo, lhe é imposta uma punição. Mas essa é outra história.

E, então, de repente, com o amor de Gerrit, a história da rosa ganha vida: com a batida de seu coração, com sua entrega à força de atração da beleza. Esse é um estágio importante na pesquisa da realidade da rosa: nosso anseio por ela produz vida – e que vida!

Expectativas (Expectations) – Sir Lawrence Alma – Tadema, 1885
Incompreensível
No salão do castelo, os presentes percebem a presença de Gerrit. Eles descobrem por sua vez o princípio que se torna consciente da realidade das rosas. E muitos se precipitam sobre ele massivamente. Ele recua e tenta fugir, mas eles pegam-no pelo braço, pelas mãos, gritam coisas incompreensíveis, puxam-no para a mesa, prensam-no sobre uma cadeira, colocam um prato à sua frente, servem-lhe um copo, prendem nele um guardanapo e gritam:
Nam zili, nam gli, nam volozia pinex! É claro que Gerrit não compreende nada do que está sendo dito, mas entende que é bem-vindo, até muito bem-vindo. Eles alegram-se visivelmente com sua presença.

 

É um passo mais avançado na redescoberta da realidade da rosa. A experiência de vida, amor e alegria, porém… em uma linguagem incompreensível! A nobreza do outro reino em nós, embora nos favoreça, ainda não fala nossa língua. Ou nossa língua não é a dele.

Mas é algo muito especial quando já aceitamos a voz interior, a atividade da rosa, quando já sentimos sua vibração: o princípio que nos faz reconhecer a outra realidade já foi despertado para a vida. O que acontece, então? Porque provar essa vida e essa alegria em uma linguagem incompreensível não seria o final do desenvolvimento?

Espinho
Na verdade, é somente depois disso que começa o trabalho sobre si mesmo, a entrega de si mesmo que Oscar Wilde também descreve em uma história. Ele vai tão longe, que diz que o espinho da rosa precisa penetrar o coração. Isso quer dizer que consagrar a vida à rosa é uma via crucis. Equivale a dizer, em sentido figurado, que precisamos estar prontos para abrir o próprio coração ao espinho da rosa.

E, em outra história, A última rosa, Paul Biegel diz: o devotamento à rosa torna-se tão grande que ficamos preparados para entregar nossa vida a ela – para compreendermos a linguagem dessa outra realidade textualmente.

Talvez essa seja a atitude mais irreal para entender a outra realidade: estarmos preparados para admitir outra base para o coração ou que pelo menos o purifiquemos. Só então o trabalho de entrega da nova configuração cardíaca revelará tudo o que é incompreensível e conseguiremos aprender a linguagem do amor, que é a mesma linguagem da rosa. Assim, o que parecia uma via crucis torna-se uma festa alquímica.

O marujo consegue finalmente beijar a Bela, que finalmente responde na linguagem dele:
“Você está aí? Não quis perturbá-lo, você estava dormindo tão bem!”

Biegel chama a outra realidade de “encantamento”. É o que se passa com Gerrit: “Ao invés de quebrar o encanto com seu beijo, ele se deixa prender pelo encantamento, tornando-se um deles”. Por isso, agora ele consegue compreendê-los.

O palácio, diz a história, situa-se fora de nosso tempo e nosso espaço. Ele não é geograficamente determinável e também o tempo transcorre de modo diverso.

“Mas o marujo Gerrit continua vivendo nesta realidade”, diz a história. “Uma vez por ano ele passeia com sua amada princesa pela magnificência dos campos e bosques […] e canteiros cheios de rosas – e uma noite ele dorme ao lado de sua princesa no esplêndido palácio, que ninguém sabe onde fica.” ◊

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Pentagrama no 2 / 2018

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