Procrastinação

Dizemos, às vezes, que nada dura para sempre e que nada nem ninguém é perfeito – assim como um amor que vem de um lado só. O amor é uma dança, um intercâmbio contínuo de força e intensidade. Novalis, Claude van de Berge e David Whyte, todos eles trabalham de acordo com o mesmo princípio.

No livro Die blaue Blume (A Flor Azul), escrito por Novalis, lemos: “Parece-me que um historiador deve ser necessariamente também um poeta, pois é provável que apenas os poetas dominem a arte de relacionar corretamente os fatos”.

E mais adiante:

“Por esse motivo sempre amei os poetas. Com eles, a vida e o mundo ficaram mais claros e compreensíveis para mim. Sempre tive a sensação de que eles são amigos dos ousados espíritos da Luz, que penetram em toda natureza distinguindo-a e recobrindo-a com um véu próprio de colorido suave. Sentia como minha própria natureza facilmente desabrochava em suas canções e era como se, então, ela conseguisse mover-se com mais liberdade, fruir de sua leveza e nostalgia, estender suas asas e suscitar uma série de atividades fascinantes”.

Com certeiras pinceladas poéticas, Novalis nos faz ver o mundo através dos olhos, do coração e da alma do poeta. Como gostaríamos de dispor de uma faculdade que pudesse fazer cada palavra estremecer de alegria e “milhares de capacidades fascinantes” despertar! Então tudo se tornaria um ato de criação que preenche, enriquece e restaura o mundo e a vida.

Então seria possível reconhecer o que o poeta belga Claude de Berge relata em seu Essay Anaphorischen (Ensaio Anafórico) no qual ele dá treze definições de poesia. A seguinte definição assemelha-se a uma advertência:

“Poesia não é adorno ou deleite, não é uma languidez, mas sim força: força anímica e força vital”.

E as duas últimas definições apregoam: “Poesia é a sacralização da linguagem” e “Poesia é a fala do silêncio”.

Poesia é força: força anímica e força vital

Vamos deixar que a palavra cante, e a linguagem flua, para que se torne a força que santifica a vida, para que mantenha seu efeito saudável, de cura, para que leve o silêncio à atividade. Assim, poderemos atuar de modo muito criativo!

Assim flui o Verbo: o Verbo que “era no princípio”, o Verbo que está em Deus, o Verbo que é Deus. Ele é uma força que impulsiona para frente, que dirige a tudo e a todos e que nos leva de volta à nossa origem… como possibilidade.

Para isso, é preciso adquirirmos consciência – consciência para conseguirmos ser ativos criativamente a serviço da Gnosis e da humanidade: essa é a única possibilidade.

Alguém uma vez me perguntou: “O que você mais gosta de fazer?” e acrescentou: “Se você sabe, com certeza também sabe o que os outros preferem…”.

Eu não sabia. Uma pergunta tão simples, mas eu não tinha a menor ideia. Era uma questão quase insolúvel. Uma questão que    eu carreguei comigo por mais de um ano.

Rilke diz, em seu poema Was mich bewegt (O que me mobiliza): “É preciso ter paciência com as questões não resolvidas que ficam em nosso coração e gostar das questões por elas mesmas: como se fossem cômodos trancados, como livros escritos em uma língua muito estranha. Trata-se, portanto, de vivenciarmos de tudo. Se vivemos essas questões, talvez as vivamos mesmo lentamente, porém é certo que, um dia, sem percebermos, viveremos a resposta”.

Talvez eu precisasse mesmo carregar comigo aquela pergunta. Mas a resposta não vinha! Nesse meio tempo, achei consolo em um ensaio do escritor inglês David Whyte, cujo título era Procrastination (Procrastinação). Ele nos consola ao mostrar que aquilo que parece ser indolência, indecisão e falta de interesse é, na realidade, um processo de amadurecimento. Ao invés de procurar esclarecimentos e definições para, com isso, dar sentido, ou seja, dar expressão a si mesmo e a seu ambiente, a procrastinação pode levar a uma lenta formação de um modelo: a um padrão verdadeiro que já está à nossa espera dentro de nós mesmos.

Philipp Otto Runge, Die Zeiten (Os tempos). Quatro projetos de gravura em cobre, Die Zeitendestages (As fases do dia), quatro gravuras em cobre, 1803. Fotografado durante a mostra Alles im Allen (Tudo em todos). O mundo espiritual do filósofo místico Jacob Boehme, no Castelo Residencial de Dresden, 2017 

Talvez a resposta àquela pergunta “O que você mais gosta de fazer?” já esteja há muito tempo dentro de nós, à espera de vir à luz.

O que toda pessoa mais gosta de fazer é amar. Simplesmente amar. E é maravilhoso que o mandamento mais importante na vida e mesmo a mais elevada oitava dessa ideia seja: “Amar a Deus acima de todas as coisas”.

Que deus?
O deus humano? Aquele que sempre nos toma nos braços, que nos consola, que nos espera pacientemente e que nos desperta?
O deus intelectual? Que nos entende e nos proporciona o discernimento?
A alma-deus? Aquela que nos permite sentir que tudo é Um e nos impele à unidade?
Ou o Espírito Divino que, com todo amor, nos conduz de volta à casa do Pai?

Sim: amar assim, incluindo tudo, com todo coração, toda alma, com toda abnegação, perfeita fé, com toda a nossa inteligência, todas as nossas capacidades, mesmo com todo nosso eu…

Em um dos Cantos da Pistis Sophia lemos:
“Sirvo ao Senhor e seu povo está com Ele. Nele confio. A Ele eu amo. Eu não saberia como poderia amá-lo se Ele não me amasse. Quem está em condição de saber o que é amor? Somente aquele que é amado verdadeiramente;”
“Ama a Deus acima de todas as coisas.”
 

Então, podemos amar porque somos amados por Deus! Não dizemos, às vezes, que nada dura para sempre e que nada nem ninguém é perfeito – como um amor que vem de um lado só? O amor é uma dança, um intercâmbio contínuo de força e intensidade. Amar e ser amado. Vá em busca do Deus que o ama! Mas não busque fora de você mesmo. Deus se apresenta a nós como uma Luz em nosso espírito, como um suave calor dentro de nosso coração e como força em nossa vontade. Busque o Deus dentro de você e seja grato!

O mestre Beinsa Douno (Peter Deunov) diz a respeito do amor: “O amor humano transforma e oscila. O amor espiritual oscila, mas não transforma. O Amor divino não transforma, não oscila: ele simplesmente cresce”.

Assim, o amor humano pode evoluir para o Amor divino. Utilizando a linguagem primordial, ele diz:
“O amor meramente humano leva ao sofrimento,
o sofrimento traz experiência,
a experiência traz mais conhecimento,
o conhecimento traz sabedoria,
a sabedoria leva à verdade.
 
Deus é Amor.
Amor, Sabedoria e Verdade.
Cristo torna Deus perceptível.
Cristo é Amor Divino, a Sabedoria Divina, a Verdade Divina: ele pode ser vivido e aplicado por todos os homens e mulheres. Não existe caminho mais seguro e melhor do que estes três princípios:
O Amor traz a Vida,
a Sabedoria traz a Luz,
a Verdade traz a Liberdade.” ◊

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Pentagrama no 1 / 2018

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