Os cátaros esquecidos de Mont Aimé

 
Os bogomilos e os cátaros se autodenominavam “pravi krstjani” (verdadeiros cristãos)e “bons crestians”
(bons cristãos). Sob essa denominação eles propagavam sua mensagem gnóstica de um cristianismo que
renova o ser humano interior, colocando-o novamente em seu legítimo lugar diante de Deus, ou melhor, do reino original.
 
Na Idade Média, o idioma francês ainda não tinha uma palavra específica para os membros da fraternidade dos cátaros. O termo cátaro somente foi introduzido em 1849.
 
A palavra bougre (búlgaro) como designação para os que, mais tarde na História, foram chamados
“cátaros” era empregada durante a Idade Média principalmente no norte da França. O objetivo era
mostrar que o novo ensinamento iluminador era de origem búlgara.
Imagem estilizada de um morto, a arma cruzada sobre o peito com uma lua e um triângulo. Pedra em Banjevici, Leste da Bósnia

A palavra “bugre” (bougre, em francês) deve sua grande reputação à política de terror do inquisidor que entrou para a história como Robert le Bougre. Entre 1230 e 1239 ele comandou com firmeza a perseguição aos bugres ou cátaros no norte da França e em Flandres. Enquanto o catarismo era erradicado no sul, ele foi encarregado por Roma de tomar o norte da França. Esse foi o prenúncio de um genocídio quase esquecido pela História.

O perseguidor de hereges Robert le Bougre ganhou asas de forma macabra através da carta pontifical que trazia consigo. Com 50 mercenários e arqueiros ele percorreu o país prendendo qualquer cidadão e queimando em sua passagem tudo que parecesse se desviar um pouco da crença coletiva em vigor. A sexta-feira 13 de maio de 1239 foi incontestavelmente o ponto mais baixo de sua atividade tenebrosa. Na semana anterior ao Pentecostes, 700 cátaros da região da Champagne foram submetidos a um interrogatório severo. Haviam sido identificados em buscas feitas durante a feira semanal da província de Provins, sempre muito frequentada.

Um dos cronistas menciona que “bastava ser chamado ‘bugre’ para ser preso e queimado pelo irmão Robert”. Segundo as fontes, na sexta-feira antes de Pentecostes, Le Bougre levou 183 cátaros, maniqueus e bugres inocentes à fogueira na montanha Mont Aimé, 20 km a sudoeste da cidade de Châlons-en-Champagne. Tudo isso na presença do sereníssimo Thibaut IV, rei de Navarra e dos barões da Champagne bem como de 16 bispos das regiões dos arredores. Apenas o arcebispo de Sens não estava presente. Como testemunha ocular, o relator Aubri des Trois-Fontaines diz que talvez fosse um protesto silencioso “contra esse holocausto grande e muito agradável a Deus”.

“Mestre Robbaert” e Hadewijch
Robert le Bougre também deve ter cruzado o caminho de Hadewijch, conhecida mística flamenga da Idade Média. Ele aparece nos textos da sua Lista dos Perfeitos que segue aos seus escritos Visões. Essa lista também relata uma visão na qual é revelado a Hadewijch quais pessoas amaram da maneira perfeita e, assim, se aproximaram mais de Cristo. Depois de uma lista de “amigos de seu círculo íntimo imediato” (João Batista, João Evangelista e Maria Madalena), Hadewijch cita – anonimamente, pois a Inquisição estava bem perto – 73 contemporâneos. Entre eles estava também “uma beguina que mestre Robbaert mandou executar por causa de seu amor verdadeiro”.
 
É preciso considerar aqui, sobretudo, que os perfeitos de círculos místicos não são idênticos aos perfeitos e perfeitas cátaros ou aos gnósticos. Mestre Robert e seus colegas são certamente o motivo pelo qual sabemos tão pouco da vida pessoal de Hadewijch. Seus textos em língua materna, o flamengo brabantês, puderam ser amplamente distribuídos porque a maioria dos inquisidores não dominava esse idioma. Mas, no que se refere à pessoa da poetisa, distância e discrição eram necessárias. Apenas sua relação extremamente pessoal com Deus – sem a intervenção de um sacerdote – poderia facilmente condená-la como herética. O fim da vida de Hadewijch está inteiramente envolto em névoa. Historiadores da Literatura perguntam se isso não se deve à intervenção brutal de “mestre Robbaert”.
 
Quem era esse Robert le Bougre? Esse Robert o Búlgaro, certamente não era um búlgaro!

Seu segundo cognome era “Robert le Petit” (Roberto, o Pequeno). De início, exercia atividades eclesiásticas no norte da França. Depois, abandonou a batina e tornou-se ativo nos grupos de bogomilos-cátaros em Milão. Mas, após 10 anos, esse dissidente confessional voltou repentinamente à sua pátria, agora na figura de um dominicano. Recebeu o encargo de comandar a caçada aos “bugres”. Tomando em conta seu passado, esse apóstata foi considerado por seus superiores mais capaz que qualquer um de reconhecer os cátaros apenas por sua linguagem e seu comportamento (per solam loquelam et per solos gestus). Depois de ter concluído seu holocausto em 1239, o implacável Robert le Bougre foi dispensado de suas funções. Como recompensa por seus serviços, ele foi caçado pelos dominicanos e condenado à reclusão perpétua em um mosteiro.

“Cátaros esquecidos”
O nome Robert le Bougre estará ligado por todos os tempos aos horrores ocorridos no Mont Aimé. Muito tempo se passou até a pesquisa histórica interessar-se por essa tragédia dos cátaros. Por isso também se fala dos “cátaros esquecidos de Mont Aimé”. Há algumas décadas a comunidade de Épernay tentou obter o status de monumento protegido para o Mont Aimé através de uma petição dirigida ao governo.
 
Após o insucesso da petição, foi criada a Sociedade Galaad em Épernay com o objetivo de fomentar a pesquisa histórica sobre os cátaros em Champagne. Uma de suas primeiras iniciativas foi uma nova reivindicação às autoridades francesas para considerar oficialmente o Mont Aimé como monumento histórico. Porém foi em vão. Isso é digno de nota porque a “Champagne mistérieuse”, a Champagne misteriosa, sempre esteve em primeiro lugar quando se tratava da “região sagrada” na qual conseguiu prosperar um largo espectro de grupos com orientação espiritual. 
 
E não nos esqueçamos também da presença ativa dos troubadours champenois da Idade Média, que eram o reflexo nortista dos trovadores occitanos os quais traziam a mesma mensagem oculta em suas canções de amor. É evidente que existia uma forte ligação entre o norte e o sul da França. Não longe do Mont Aimé, o campo de trabalho francês do Lectorium Rosicrucianum pretende estabelecer um novo centro de conferências no futuro. Sem dúvida, desta nova cidadela de luz fluirão impulsos que levantarãoermanentemente os véus dos acontecimentos no Mont Aimé. ◊
A diferença entre o místico e o gnóstico
Temos aqui a oportunidade de mostrar a diferença essencial entre o místico e o gnóstico. Ambos constróem um corpo-alma; ambos, por seu comportamento, extraem a essência que permite o desenvolvimeno dos éteres superiores. Quando o corpo-alma já atingiu sua maturidade plena, ambos possuem uma intuição aguda e estabelece-se uma relação com o mundo do espírito da vida, que é o domínio da força crística. Então, acontece um influxo permanente de grandes forças que permite às pessoas em questão chegar à maturidade, a uma ampla visão de todas as coisas da vida, a uma identificação cotidiana com os valores santos que ultrapassam de longe a compreensão do homem comum.
 
Mas, enquanto o místico contenta-se com esse estado supra-humano, o gnóstico vai mais longe. O porquê dessa diferença não pode ser explicado com precisão, pelo menos por enquanto, apesar de termos a sensação de que o gnóstico dispõe de mais amor ao próximo do que o místico. É bem certo que o gnóstico manifesta um amor ao próximo mais dinâmico que o amor ao próximo do místico. Enfim, enquanto o místico contenta-se em produzir e aspargir a força de amor a serviço das forças dirigentes, o gnóstico, pelo contrário, quer integrar-se com as forças dirigentes, quer reforçar a ordem mágica do serviço, quer orientar conscientemente as chamas de seu amor a fim de que elas possam ser utilizadas tão eficazmente quanto possível. Algo dentro de seu ser o leva a isso; e, para poder fazê-lo, ele deve, ele quer penetrar o mistério de sua existência e, por isso, busca o conhecimento das coisas detrás do véu. Portanto, ele deve perceber conscientemente os domínios invisíveis a fim de poder descobrir a origem das coisas e trabalhar como um cidadão de dois mundos, a serviço de Deus para o mundo e a humanidade.
 
A diferença de valores entre o místico e o gnóstico, em relação à grande obra da humanidade torna-se, portanto, evidente. Aí onde o místico junta suas mãos em oração, pedindo pela paz, aí onde o místico, servindo-se de sua faculdade intuitiva, aponta muito acertadamente os erros nesta sociedade enferma e chama os homens à reflexão, o gnóstico, em contrapartida, põe-se a trabalhar, ele emprega suas forças dinâmicas a fim de derrotar definitivamente o inimigo. Ele põe os pés no campo de batalha para uma ação imediata, e faz isso a partir dos domínios do espírito e da vida, segundo a lei do Evangelho.
J. van Rijckenborgh, O chamado da Fraternidade da Rosa-Cruz, São Paulo, 2014.

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Pentagrama no 4 / 2017

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