“Faça-se a luz” – Fiat Lux!

Nos círculos que respeitam a Bíblia, geralmente as pessoas consideram que as palavras registradas no início do livro do Genesis (“Faça-se a luz!”) dizem respeito à criação de nosso mundo. Mas o que aconteceria se considerarmos essas palavras não somente relacionadas à criação em um passado muito remoto, mas um chamado no presente – agora, neste instante?

“Faça-se a luz” em nossos corações! Fiat Lux dentro de nós!
Esse chamado sempre está chegando até nós, dia e noite. “Faça-se a luz” não é aquilo que desejamos lá no fundo de nosso íntimo, o que esperamos tão intensamente, com impaciência?
Essa é a prece interior, silenciosa, que acompanha nossos passos de buscadores, neste mundo tão confuso. E, se considerarmos realmente as palavras “Faça-se a luz” como o início da criação, então poderemos vê-las também como o nascimento do novo homem, o começo de um novo dia dentro de nós.
 
Na segunda Epístola aos Coríntios (4:6-7), lemos: “Porque o Deus que disse: ‘Das trevas brilhe a luz’, é também aquele que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para que irradiássemos o conhecimento [Gnosis] do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo. Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós”.
Nesse trecho, o ser humano desta natureza é chamado de “vaso de barro”. A luz não pertence a ele, mas ela brilha em seu coração para iluminá-lo, se ele assim o permitir, a fim de que a Gnosis possa nascer dentro de seu coração.
O vaso de barro, o ser humano, pode tornar-se transparente para a lluz, e é nisso que consiste a tarefa do aluno que pertence a uma escola de mistérios gnósticos.
 
Uma escola de mistérios é uma escola de luz – e precisamos nos tornar conscientes disso! Aliás, esse é um aspecto essencial de nossa prática de vida diária: sermos especialmente conscientes de fazer parte de uma escola de mistérios, de uma escola de luz.
A luz é o primeiro, o filho único nascido de Deus. “Faça-se a luz” é a primeira palavra, o Verbo criador. A luz é o único filho que Deus fez surgir – todo o resto da criação divina surgiu graças a essa luz: Deus a criou e a criará eternamente a partir de sua luz.
 
Em nossos dias, o uso da palavra “Deus” quase sempre traz consigo um problema. É porque ficamos buscando uma denominação mais apropriada. Deus: chama espiritual onipresente, vibração original insondável, o invisível, o incognoscível, a profundeza primordial, incomensurável, de onde emana a luz. A luz brilha das profundezas primordiais. A mais pura fonte de luz de nosso universo não passa de um pálido reflexo em comparação com a luz divina, mesmo se considerarmos que o conjunto de tudo o que é perecível apresenta certa semelhança com a eternidade. Hermes Trismegisto diz: “Assim como é embaixo é em cima”. Isso não quer dizer que os dois são idênticos, mas sim que eles possuem uma semelhança. A sombra de uma árvore não é a árvore em si. Nosso reflexo no espelho, no qual o lado direito se transforma em lado esquerdo, não somos nós. No entanto, podemos aprender muito com uma semelhança!
 
A leitura do livro da natureza, desta natureza inferior, aqui embaixo, pode nos trazer muito discernimento.
As profundezas primordiais geram de si mesmas a luz eterna, que é o seu filho: assim, Deus se revela como luz. Aí estão alguns exemplos de semelhança: a aranha gera de si mesma o fio com o qual vai tecer sua teia; o caracol produz sua própria casa. Mas, como dizíamos, a semelhança não significa identidade, por mais que ela possa ser um auxílio para nossa imaginação interior. 
 
Você sente a semelhança entre a luz divina e a água viva? Sem água não poderíamos sobreviver aqui embaixo. Nosso corpo compreende 70% de água: todos os legumes, frutas, plantas são constituídos principalmente de água – essa é a condição vital. A luz divina é a condição vital para o ser humano vivificado em sua concepção original. Desse conhecimento interior eleva-se a prece silenciosa, o voto mais ardente e profundo que emana do coração: “Faça-se a luz!”, Fiat Lux!

 

 
A leitura do Livro da Natureza em nós e ao redor de nós
pode nos oferecer grande compreensão
A Escola Espiritual é uma escola de mistérios, uma escola de luz, a escola da luz crística. Ela pertence ao Ser crístico – a mais ninguém. Que sejamos conscientes de que a luz crística é indispensável!
Quanto mais conscientes somos com relação a isso, mais a luz torna-se ativa em nosso interior e no interior do grupo. Quando temos pouca consciência disso, a atividade da luz diminui. Um peixe não pode viver sem água! Se ele sair da água, vai se debater no seco. Seu corpo se contorce, ele deseja a água.
 
Quem deseja a vida real não consegue viver sem a luz: sem ela, sua alma é como um peixe se debatendo na terra seca. Você consegue ver a semelhança entre a luz divina e o alento vivo? Estamos falando do alento divino, da força de vida universal que penetra e alimenta tudo e todos. Nosso mundo também não poderia existir sem o alento de amor de Deus. Se já não pudermos respirar, em pouco tempo nossa vida acabará! Aqui, estamos falando do campo de respiração vivo de nossa Escola Espiritual: nosso ser mais interior deseja inspirar o alento divino, pois aí está o objetivo de nossa aprendizagem.
 
Uma história simbólica narra como um aluno vai lamentar-se junto a seu mestre, dizendo que ainda não encontrou Deus, por mais que já o esteja buscando há muito tempo. O mestre conduz o aluno a um riacho e o convida a banhar-se com ele. De repente, ele mergulha a cabeça do aluno na água. Quando o aluno se debate e reaparece, o mestre pergunta-lhe: “No que você estava pensando quando estava debaixo da água?” O aluno responde: “Pensei uma só coisa: como conseguir ar o mais rápido possível?”
O mestre diz: “Se seu anseio por Deus fosse tão grande quanto o seu desejo de conseguir ar quando você estava quase se afogando, então você O teria encontrado há muito tempo!”
 
Veja essa outra ilustração: quando um doutor da lei, que estava tomando o ensinamento ao pé da letra, perguntou a Jesus qual era o maior mandamento para encontrar vida eterna, ele respondeu: “Amarás o senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” (Mateus 22:37-40)
 
O doutor da lei, homem que segue tudo ao pé da letra, tanto as leis como as normas, com certeza não esperava essa resposta. Ele estava esperando um mandamento, uma lei, uma instrução clara, que ele poderia tentar colocar em prática quando bem desejasse. Jesus responde essa pergunta, mas substitui a palavra “mandamento” pela palavra “amor”; ao mesmo tempo, não deixa de utilizar a palavra “mandamento” porque conhece o nível de consciência do doutor da lei, sabendo que, de outra forma, ele teria dificuldade em compreendê-lo.
Quadratum Nigrum, Fiat Lux. (Quadrado Negro, Faça-se a luz). Instalação de arte não-objeto na Galeria Sztuki, em Warschau, Polônia. O objeto inteiro, assim como sua descrição nos remete a Robert Fludd. Mistério. Santuário. Trevas. Quadrado Negro. Et sic in infinitum. (E assim até o infinito). 
O amor não pode ser um mandamento, nem sequer uma norma. Não podemos pedir a ninguém para “ter amor”. O amor anula todo e qualquer mandamento! O doutor da lei fala sobre “mandamento”, mas Jesus fala sobre “amor”. O doutor da lei não havia pedido dois mandamentos, mas Jesus imediatamente liga a segunda condição à primeira: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”.
Para o vaso de barro, o vaso da terra, o homem terrestre, esta é sempre uma tarefa difícil – e muitos dirão que ela é realmente impossível.
 
Mas onde Jesus coloca maior relevo? Amarás o senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Aí está o destaque: amar a Deus sobre todas as coisas, acima de tudo!
E isso vale também para nós mesmos e para nosso próximo.
Isso significa: amemos a Deus, a chama espiritual divina que habita nosso coração, acima de tudo! Acima de tudo o que nossa própria pessoa, que é o vaso de barro, ainda poderia amar.
O reino de Deus está em nosso interior – e também no interior de nosso próximo, de nosso semelhante.
Amemos o divino em nosso próximo – acima de tudo o que nosso próximo poderia desejar para si mesmo em nível pessoal. Mas, em nível pessoal também podemos fazer muito, se aplicarmos o seguinte mandamento: “Não devemos fazer aos outros o que não desejamos que nos façam”. Isso já se parece bem mais com um mandamento ou norma de ouro, com relação ao modo de nos comportarmos com nossos semelhantes. E o que é melhor: essa afirmação, esse mandamento, já não necessita de explicação. Ele realmente toca nosso sentimento e nossa razão. Ele é claro, evidente e direto: o que não desejamos que façam para nós também não devemos desejar que façam aos outros!
 
Mas vamos tentar ir mais longe e mais profundamente nessa questão, sem nos esquecermos desse mandamento do plano pessoal.
Amarás a Deus sobre todas as coisas e a teu próximo como a ti mesmo. Quantas vezes essas palavras não foram repetidas no decorrer dos últimos dois mil anos? Quantas vezes já as ouvimos? Provavelmente já as ouvimos tão frequentemente que já perdemos a possibilidade de assimilá-las!
Talvez você saiba que, quando estamos deitados, à noite, e lá fora está chovendo e escutamos o ruído da chuva na vidraça, depois de algum tempo mais ou menos longo já não o escutamos e adormecemos. Mas nós não queremos ser esse tipo de pessoa que adormece, não é?
Mas esse comando “Faça-se a luz!” nos mantém despertos! Ele está sempre exigindo nossa atenção – e esse deveria ser nosso íntimo desejo, tanto de noite como de dia!
 
A luz é amor, calor, vida! O amor é a luz que é ofertada permanentemente por Deus. Assim como é em cima é embaixo. O que está embaixo é semelhante ao que está em cima. Nosso sol visível é uma similitude, um simulacro, uma imitação do amor-luz divino! 
O sol irradia luz, calor e vida, mesmo quando é noite onde estamos. Do mesmo modo, o amor-luz age em nós, mesmo quando temos a impressão de estarmos em uma noite interior, desde que sempre estejamos voltados para o amor à vida verdadeira!
 
Vamos fazer outra analogia: à vezes, percebemos que as pessoas que partilham amor e afeto há algum tempo começam a se parecer um pouco. É que entre elas acontece uma troca energética que se expressa na matéria pelo comportamento, o gestual e os traços do rosto. Podemos deduzir daí que algo não está indo bem com os casais que não se parecem. Se realmente amamos a Deus acima de tudo, nos tornaremos semelhantes a Ele em nosso ser mais profundo. Isso nos faz pensar nas palavras quase inacreditáveis de Jesus: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mateus, no Sermão da Montanha, 5:48). Ou nas palavras do Salmo 82, versículo 6: “Vós sois deuses e todos vós, filhos do Altíssimo”.
 
Ver e reconhecer o filho de Deus em nosso próximo: aí está a chave do amor ao próximo!
Não conseguiremos aprender sobre o amor praticando exercícios, um método, um treinamento em uma aula.
Não conseguiremos cultivar o amor adotando um comportamento imposto do exterior ou por nós mesmos!
Não podemos “fazer uma performance” do amor.
O amor pelo Altíssimo, pelo que há de mais profundo em nós mesmos e em nosso próximo, vai desabrochando quando o filho de Deus que está latente em nós começa a exigir seu direito inato, seu direito de ser e estar unido (como Um só!) com seu Pai – e tendo total consciência disso!
E esse milagre se realiza por meio do silêncio interior. Uma semente germina no silêncio e na escuridão, debaixo da terra. A Palavra divina, o Verbo divino, somente pode germinar em nós no silêncio interior, que é a contribuição indispensável que este vaso de terra, o ser humano, pode oferecer ao tesouro alojado em seu coração, a fim de que ele possa ouvir a voz de Deus, a voz do silêncio.
 
Como poderíamos ouvir a voz divina se estamos sempre falando?
No Salmo 46:10 está escrito: “Aquietai-vos e sabei que sou Deus”. Esse “aquietai-vos” dirige-se ao homem natural, terrestre. E todos vocês sabem, caros amigos, que “estar em quietude”, “ser silencioso”, significa muito mais do que simplesmente manter a boca fechada.
O comando “Faça-se a luz!” nos mantém
despertos e exige nossa contínua atenção
Quando somos forçados, não conseguimos dar nenhum passo adiante!
Quando o amor a Deus, à nossa fonte original espiritual, está em nós, então a base para o silêncio interior está assentada. Então, dizemos o que deve ser dito; mantemos o contato com nosso próximo com base no silêncio interior; assim, já não há tensão astral proveniente do ego em nossas palavras. Nada mais que isso! Isso já é uma bênção para todos os nossos próximos, para todos os que estão à nossa volta. No silêncio interior, a sabedoria germina: é a Gnosis, o “eu sou Deus” dentro de nós, a fonte do ser universal em nosso microcosmo.
 
A Gnosis é a sabedoria absoluta que vive em nosso coração. O silêncio interior é a paz. Amor, silêncio e paz são UM! Paz não significa, aqui, uma trégua temporária astral ou mental, nem a paz que nos obrigamos a sentir em nós. Quando nos obrigamos ao silêncio e à paz, somos como o doutor da lei, o homem que necessita de mandamentos, de leis e de instruções, o homem que vive à base de regras e normas impostas do exterior ou feitas por ele mesmo.
 
O amor a Deus ultrapassa totalmente esse nível de consciência. Trata-se de permitir que a sagrada energia que emana do coração possa derramar-se para o exterior.
Preencham de luz o espaço à sua volta! – afinal, fazemos parte de uma escola de mistérios, de uma escola de luz!
Amor, silêncio e paz são UM, uma só realidade! Guarde a paz em seu coração. Não importa o que possa acontecer, tanto dentro de você como à sua volta, no mundo, mantenha o silêncio interior. Mantenha a paz em seu coração!
 
Um fato novo que está acontecendo no mundo, por exemplo, está expulsando outro: tudo acontece para que nossa paz interior seja perturbada. É claro que não se trata de ficar olhando para outro lado intencionalmente. É preciso observar, sem fugir – mas permanecer no amor a Deus, no amor ao reino de Deus em nós, na fonte universal, em tudo o que fazemos e entendemos. “Mas buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. (Mateus, 6:33)
 
Catharose de Petri escreveu em seu livro O Verbo Vivente:

O Verbo de Deus é uma realidade vivente, vibrante, intangível. Se fordes capazes de dar testemunho dessa realidade intangível, compreendereis a letra da verdade. Conhecer a letra da verdade é, ao mesmo tempo, conhecer o processo da transfiguração. Penetrar a verdade, identificar a verdade com o sangue do coração, significa que o conhecedor da letra da verdade se torna alguém que aplica a verdade, o realizador. Portanto, há então: 

  1.  conhecer a letra da verdade,
  2. colocar a verdade em prática, 
  3. vivenciar a verdade.

Se compreenderdes essa tríade, encontrareis o tríplice Verbo. A bênção de Deus repousará sobre vós e o poder da Comunidade do Espírito será vossa recompensa.Os servidores de Deus formam, juntos, o povo de Deus sobre a terra. Em todas as escrituras sagradas, fala-se do “povo de Deus”. Deixemos de lado a questão de saber se Jesus, o Senhor, no sentido comum, foi um servidor da Gnosis nascido do sangue.

Todavia, a Escritura Sagrada afirma que ele era um sumo sacerdote da Ordem de Melquisedeque. Trata-se aí de um estado de ser que se eleva muito acima de sangue, raça e nacionalidade. Por conseguinte, o povo de Deus é uma comunidade de servidores que habitam todos os países da terra e que pertencem a todas as raças e a todos os povos. Essa Fraternidade servidora pode ser considerada a vanguarda da Corrente Universal da Fraternidade de Cristo. Todos esses servidores vivem ocupados num só e único trabalho. Podeis reconhecê-los pelo fato de que nenhum deles quer estabelecer o Reino de Deus nesta natureza. Sem exceção, eles vos remetem ao ponto de partida adâmico da alma-espírito vivente. Essa é uma maneira de falar muito realista, porque em vós habita a centelha do espírito eterno. Por essa razão, muitos já traçaram uma nítida fronteira entre matéria e espírito.

Todavia, a palavra matéria não deve vos fazer pensar de imediato em tudo aquilo que deixastes para trás quanto à ligação com a matéria grosseira. Deveis estender o conceito matéria até vosso próprio ser. Concluireis então que a matéria é nada mais do que o oposto do espírito.Na matéria também prevalecem forças moleculares positivas e negativas. Mas como essa matéria é de composição dialética, ela é demolida no próprio corpo de modo contínuo. Na matéria reina uma vida incessante, que consiste em construir e demolir.

No Espírito, as forças positivas e negativas colaboram de maneira correta, a fim de realizar uma unidade sem precedente, para que nasça, mais uma vez, um corpo totalmente novo. Como o Espírito é eterno, nele a demolição é desconhecida. Existe um crescimento incessante, uma criação sempre em movimento. Ora, esse é o processo do qual todo aluno sério da Escola Espiritual da Rosacruz Áurea deve começar a participar. Em cada aluno reside a centelha do Espírito eterno, na qual se encontra a vida perfeita, isto é, uma vida sem demolição.

Possa a centelha do Espírito jorrar até se tornar um fogo que resplandece!
Possa a semente germinar rapidamente, crescer e dar frutos! ◊
O silêncio interior é a contribuição indispensável que o vaso de barro
– o ser humano – pode oferecer ao tesouro que habita seu coração

Pentagrama no 3 / 2017

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