Identidade e não identidade do eu

Em 1894 surgiu o Evangelho de Buda, composto pelo teólogo germano-americano Paul Carus, que reunia as parábolas búdicas existentes, fragmentos do ensinamento budista e lendas. Carus vinha de um contexto pietista do sul da Alemanha e havia estudado, entre outras, na Universidade de Estrasburgo, em Tübingen. Sobre si mesmo, ele dizia que era “um ateu que amava Deus”. Esperava que aparecesse uma “religião cósmica da verdade universal”, depois do Armagedon dos povos, quando acabassem as atuais opiniões antagônicas e controversas. O capítulo 53 desse livro contém um discurso criterioso sobre o “eu”.

Kutadanta, chefe dos brâmanes da cidade de Danamati, ao aproximar-se respeitosamente do Bem-aventurado, saudou-o e disse: “Disseram, Qramana, que és Buda, o Santo, o Onisciente, o Senhor do Mundo. Mas, se fosses Buda, não terias vindo como um rei, com toda glória e poder?”

O Bem-aventurado respondeu: “Teus olhos estão fechados. Se os olhos de teu espírito não estivessem tão obscurecidos, verias a glória e o poder da verdade.”.

Kutadanta replicou: “Mostra-me a verdade e eu a verei. Mas tua doutrina não tem consistência. Se tivesse consistência, ela duraria. Mas, como não tem nenhuma, desaparecerá.”.

O Bem-aventurado replicou: “A verdade jamais passará.”.

Kutadanta disse: “Ouvi dizer que ensinas a lei, e, no entanto, demoles a religião. Teus discípulos menosprezam os rituais e recusam-se a oferecer sacrifícios, conquanto a devoção aos deuses somente possa manifestar-se mediante sacrifícios. A verdadeira essência da religião é composta de culto e sacrifício.”.

Buda respondeu: “O sacrifício do eu é maior que a imolação de touros. Quem sacrifica aos deuses seus desejos culposos compreenderá a inutilidade de fazer que os animais pereçam diante do altar. O sangue não tem qualquer virtude purificadora, mas quando a luxúria se desenraiza purifica o coração. Mais vale obedecer às leis da justiça do que adorar os deuses.”.

Sendo devoto e inquieto quanto ao destino futuro de sua alma, Kutadanta havia sacrificado inúmeras vítimas. Mas agora ele compreendia a loucura da expiação mediante a efusão de sangue. No entanto, como ainda não estava satisfeito com os ensinamentos do Tathagata, replicou: “Crês, Mestre, que os seres renascem, que há a transmigração dos seres no decorrer da evolução da vida e que, submissos à lei do carma, devemos colher o que semeamos. No entanto, ensinas a não existência da alma! Teus discípulos defendem a ideia da extinção absoluta do eu como se fosse a felicidade suprema do Nirvana. Se eu seguir simplesmente uma combinação de Samskaras, minha existência deve cessar quando eu morrer. Se sou simplesmente um composto de sensações, ideias e desejos, para onde eu poderia ir depois da dissolução de meu corpo?”

“Sinto, ó Senhor, que pregas uma grande doutrina, mas não consigo compreendê-la.
Sê paciente comigo!”

O Bem-aventurado disse: “Ó brâmane, és religioso e zelas por isso. Estás profundamente inquieto em relação à tua alma. No entanto, estás atormentando-te em vão, pois careces do único necessário. Há o renascimento dos temperamentos, mas isso não acontece mediante a transmigração do eu. Tuas formas mentais reaparecem, mas não mediante o eu. Os versos e orações pronunciados pelo mestre renascem graças ao discípulo que repete suas palavras. É somente por ignorância e erro que os homens se agradam com esse sonho de que suas almas são entidades distintas e existem por si mesmas. Teu coração, ó brâmane, ainda está ligado ao eu. Aspiras ao céu, mas são os prazeres do eu que estás buscando nos céus – e é porque não podes ver, absolutamente, a felicidade da verdade e a imortalidade da verdade. Em verdade, te digo: o Bem-aventurado não veio para ensinar a morte, mas sim a vida, e tu não consegues discernir o que é viver e morrer. Este corpo irá se decompor e nenhuma soma de sacrifícios irá salvá-lo. Portanto, busca a vida do espírito. Onde está o eu a verdade não pode estar; mas, pelo contrário, quando a verdade aparece, o eu desaparece. É por isso que deves fazer que teu espírito repouse na verdade. Propaga a verdade, põe toda a tua alma nela e faz que ela se espalhe bem longe. Na verdade viverás eternamente! O eu é a morte e a verdade é a vida. O apego ao eu é uma morte perpétua, enquanto mover-se na verdade é possuir uma parte do Nivarna, que é a vida eterna.”

Kutadanta disse: “Em que lugar, ó venerável Mestre, está o Nirvana?” “O Nirvana está em toda parte onde os preceitos são observados”, respondeu o Bem-aventurado.

“Se compreendi bem”, replicou o brâmane, “Nirvana não é um lugar – e, como não está em nenhuma parte, será que não possui realidade?” “Não estás compreendendo bem”, disse o Bem-aventurado. “Escuta, pois, e responde a estas perguntas: Onde o vento habita?” “Em nenhum lugar”, foi a resposta.
Buda replicou: “Então, o vento não existe.”.
 
Kutadanta permaneceu sem responder e o Bem-aventurado continuou perguntando:
“Responde, ó brâmane: Onde reside a sabedoria? A sabedoria é um lugar?”
“A sabedoria não tem nenhum ponto de residência associado a ela”, respondeu Kutadanta.
 

Bhagavat disse: “Então estás querendo dizer que nada disso existe? Nem a sabedoria, nem a iluminação, nem a justiça, nem a salvação, porque o Nirvana não é um lugar? Assim como um vento forte e poderoso que passa pelo mundo durante o calor do dia, também o Tathagata acaba de soprar sobre os espíritos da humanidade com o alento de seu amor – tão fresco, tão doce, tão calmo, tão delicado; e os que foram atormentados pela febre sentem-se aliviados de seu sofrimento e se deleitam com a brisa refrescante.”.

Kutadanta disse: “Sinto, ó Senhor, que pregas uma grande doutrina, mas não consigo compreendê-la. Permite que indague mais uma vez: Diz-me, Senhor, se não existe o atman*, como a imortalidade pode existir? A atividade do espírito se apaga e nossos pensamentos já não existem quando acabamos de pensar?”

Buda respondeu: “Nossa faculdade de pensar é destruída, mas nossos pensamentos permanecem. O raciocínio cessa, mas o conhecimento permanece.”.

Crédito da foto: © Sidi Yansane, Paris

Kutadanta disse: “Como pode ser? O raciocínio e o conhecimento não são a mesma coisa?”

O Bem-aventurado explicou a diferença dando um exemplo: “É como se, durante a noite, um homem tivesse necessidade de enviar uma carta e, depois de ter chamado seu secretário e ter acendido um lampião, ele o fizesse escrever a carta. Em seguida, quando isso já tiver sido feito, ele apaga o lampião. Por mais que o lampião esteja apagado, a escrita sempre estará lá. Do mesmo modo, o raciocínio cessa e o conhecimento persiste. E, da mesma forma, a atividade mental cessa, mas a experiência, a sabedoria e todos os frutos de nossos atos continuam a existir.”.

Kutadanta replicou: “Diz-me, ó Senhor, diz-me, eu te rogo, o que acontece com a identidade de meu eu quando os samskaras desaparecem? Se minhas ideias estão espalhadas e se minha alma emigra, meus pensamentos deixam de ser meus pensamentos e minha alma deixa de ser minha alma! Dá-me um exemplo, eu te suplico, Senhor. Diz-me: o que acontece com a identidade de meu eu?”.

O Bem-aventurado disse: Suponha que um homem acenda um lampião. Será que ele vai ficar aceso a noite inteira?”
“Sim, isso pode ser”, respondeu Kutadanta.
“Agora, será que é a mesma chama que arde durante a primeira vigília noturna e durante a segunda?”
 
Kutadanta hesitou. Pensou: “Sim, é a mesma chama!”, mas, achando que ali estava a cilada de um significado oculto, e esforçando-se para ser exato, disse: “Não. Não é a mesma.”.
“Então”, retrucou Bhagavat: “Não existem duas chamas, uma durante a primeira vigília e outra durante a segunda.”.
“Não, Senhor.”, disse Kutadanta.
 
 “Em certo sentido, não é a mesma chama; mas, em outro, é a mesma. Ela é produzida do mesmo tipo de matéria, emite o mesmo tipo de luz, e serve à mesma finalidade.”.
“Muito bem!”, continuou Buda. “E dirias que é a mesma chama que ardeu ontem e que ainda arde hoje no mesmo lampião, cheio do mesmo óleo que ilumina o mesmo quarto?”
“Ela pode ser apagada durante o dia”, sugeriu Kutadanta.
 
Bhagavat disse: “Suponha que a chama da primeira vigília tenha sido apagada durante a segunda. Dirias que é a mesma se ela arder novamente durante a terceira vigília?”
Kutadanta replicou: “Em certo sentido é uma chama diferente; e, em outro, é a mesma.”.
 
Tathagata continuou perguntando: “O tempo que passou durante a extinção da chama tem algo a ver com sua identidade ou sua não identidade?”
“Não, Senhor!”, respondeu o brâmane. “O tempo que passa não faz nada. Há a diferença e a identidade. Não importa que tenham se passado muitos anos ou somente um segundo e que o lampião tenha sido apagado durante esse tempo ou que ele não tenha sido.”
 
“Bem, então nós admitimos que a chama de hoje é, em certo sentido, a mesma de ontem; e que, em outro sentido, ela se transforma a cada instante. Além disso, chamas que têm a mesma natureza, que iluminam com potência igual o mesmo tipo de quartos, são, em certo sentido, as mesmas.”
“Sim, Senhor.”
“Tua natureza não consiste absolutamente na matéria da qual teu corpo é formado,
mas sim nas formas de teu corpo, de tuas sensações, de teus pensamentos.
Tua pessoa é uma combinação de samkaras. Em toda parte que eles estão tu és”
O Bem-aventurado replicou: “Agora, vamos supor que exista um homem que sinta como sentes, que pense como pensas, que aja como ages. Esse homem não é absolutamente o mesmo que tu és?”
“Não, Senhor.”

Buda disse: “Negas que a mesma lógica que é boa com relação ao que diz respeito a ti seja boa quando aplicada às coisas do mundo?”

Depois de refletir, Kutadanta respondeu lentamente: “Não, não nego. A mesma lógica reina universalmente, mas há uma particularidade com relação ao que diz respeito ao meu eu que o torna absolutamente distinto de todas as outras coisas e também distinto do eu de outra pessoa. Pode existir um homem que sinta exatamente como eu e, supondo que ele tenha o mesmo nome e os mesmos bens que eu, não será eu, absolutamente.”.

“É verdade, Kutadanta.”, respondeu Buda. “Não serias tu, absolutamente. Agora, diz-me: o indivíduo que vai à escola é a mesma pessoa quando termina seus estudos? Aquele que cometeu um crime é outra pessoa, diferente daquela que punimos cortando seus pés e mãos?” “São os mesmos.”
 
“Então, a identidade é constituída pela continuidade, somente?”, perguntou Tathagata.
“Não somente pela continuidade”, disse Kutadanta, “mas também e principalmente pela identidade de natureza.”
 
“Muito bem!”, replicou Buda. “Então, admites que as pessoas podem ser as mesmas, no mesmo sentido que podemos dizer que duas chamas de mesma natureza são as mesmas. E deves reconhecer que, nesse sentido, um outro homem de mesma natureza produzido pelo mesmo carma é o mesmo que tu és.”
“Sim, reconheço!”, disse o brâmane.
 

E Buda continuou: “E somente nesse mesmo sentido, és o mesmo tanto hoje como ontem. Tua natureza não consiste absolutamente na matéria da qual teu corpo é formado, mas sim nas formas de teu corpo, de tuas sensações, de teus pensamentos. Tua pessoa é uma combinação de samkaras. Em toda parte que eles estão tu és. Portanto, em certo sentido, reconheces uma identidade de teu eu. E não em outro sentido. Mas, se não reconhecermos absolutamente a identidade, será preciso negar toda e qualquer identidade e dizer que aquele que faz uma pergunta já não é a mesma pessoa que, um minuto depois, recebe a resposta. Agora, considera a continuidade de tua personalidade que se conserva em teu carma. Irás chamá-la de morte e aniquilamento ou de vida e continuação de vida?”

“Eu a chamarei de vida e continuação de vida!”, respondeu Kutadanta. “Afinal, essa é a continuação de minha existência. Mas não me preocupo absolutamente com esse tipo de continuação. O que me preocupa somente é a continuação da personalidade em outro sentido, que faz que um homem qualquer – seja ele idêntico a mim ou não – seja uma pessoa absolutamente diferente.”.

“Muito bem!”, disse Buda. “É isso que desejas, e é o apego ao eu. Este é teu erro. Todas as coisas compostas são transitórias: elas crescem e depois perecem. Todas as coisas compostas estão sujeitas ao sofrimento: elas serão separadas daquilo que amam e religadas àquilo que detestam. Todas as coisas compostas são desprovidas de eu, de atman, de ego. E elas te arrastam em direção a ansiedades inúteis e a más ações, tristezas e preocupações de todo tipo. Aquele que se apega ao eu precisa passar pelas infinitas migrações da morte. Ele morre incessantemente, pois a natureza do eu é uma morte perpétua.”.

“Então será que todo ensinamento é inútil?”

“Como assim?”, perguntou Kutadanta.
“Onde está teu eu?”, perguntou o Bem-aventurado.

E como Kutadanta não respondesse, ele continuou: “Esse eu a que tanto te apegas é uma perpétua transformação. Alguns anos atrás eras um menino pequeno; depois, um menino; depois tu te tornaste um jovem e agora és um homem feito. Será que existe alguma identidade entre o menininho e o homem? Há identidade apenas em um sentido. Na verdade, há mais identidade entre a chama da primeira vigília e a da terceira, mesmo que o lampião tenha sido apagado durante a segunda vigília. E agora: qual é o verdadeiro eu, aquele de quem você exige a preservação aos brados? O de ontem, o de hoje, o de amanhã?”

Kutadanta ficou embaraçado. “Senhor do mundo!”, gritou ele. “Estou enxergando meu erro, mas ainda me encontro mergulhado em confusão.”

E Tathagata continuou: “Os samskaras começam a existir mediante um processo de evolução. Nenhum samskara nasce sem um começo gradual. Teus samskaras são o resultado de teus atos em existências anteriores. A combinação de teus samskaras constitui teu eu. Continuarás a viver em teus samskaras e colherás, em existências futuras, o que agora semeias e que já semeastes em tempos passados.”.

“Na verdade, Senhor”, respondeu Kutadanta, “não é uma retribuição justa. Não posso admitir como justo que outros colham depois de mim o que estou semeando agora.”

O Bem-aventurado calou-se por um momento, e então replicou:
“Então será que todo ensinamento é inútil? Não compreendes que essas outras pessoas são tu mesmo? Tu mesmo – e não outros – colherás o que semeias! Supõe que um homem mal-educado e miserável esteja sofrendo as baixezas de sua condição. Quando criança, ele havia sido preguiçoso e indolente e, quando ficou grande, não havia aprendido qualquer profissão para ganhar a vida. Dirias que sua miséria não é o resultado de seus próprios atos porque o homem adulto não é a mesma pessoa que foi o menino? Na verdade, te digo: nem nos céus, nem nas profundezas do mar, nem se te esconderes em cavernas nas montanhas encontrarás um lugar onde possas escapar do resultado de tuas más ações. Do mesmo modo receberas, com certeza, as recompensas de tuas boas ações. Aquele que, depois de uma longa viagem volta são e salvo para casa, é bem recebido e considerado bem-vindo por seus parentes, amigos e conhecidos. Da mesma forma os resultados de suas boas obras acolhem o homem que trilha o caminho da justiça, quando ele passa da vida presente para a vida mais além.”.
 

Kutadanta disse: “Tenho fé na glória e na excelência de tua doutrina. Mas o olho ainda não pode suportar o brilho da luz. No entanto, compreendo que o eu não existe e que a verdade começa a se mostrar como o dia para mim. Os sacrifícios nada podem fazer pela salvação, e as invocações são palavras ociosas. Mas como conseguirei encontrar o caminho que leva à vida eterna? Decorei todos os Vedas e não encontrei a verdade.”.

Buda disse: “O saber é uma boa coisa, mas ele não serve para nada. A verdadeira ciência somente pode ser adquirida na prática. Pratique essa verdade de que teu irmão é semelhante a ti. Caminha no excelente caminho da verdade e compreenderás que o eu é a morte e a verdade é a imortalidade.“.

Kutadanta gritou: “Que eu possa encontrar refúgio em Buda, no dharma e na fraternidade. Aceita-me como discípulo e faz-me participar da felicidade da imortalidade!” ◊

Notas:
1.*Atman: A alma pessoal, sanguínea
2.Paul Carus, O Evangelho de Buda, Genebra, Suíça, Página 153, tradução Pentagrama

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Pentagrama no 1 / 2018

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