“Dirige agora teu coração para a luz e conhece-a”

(*Hermes, em Corpus Hermeticum, 19)

Com nosso pensamento e inteligência, somos criadores de um mundo de opostos – e não temos outra escolha. Nosso pensamento não estabelece conexões, ou só o faz muito raramente. Por isso, qualquer processo de desenvolvimento espiritual tem início no coração. Ele é a porta abençoada através da qual a energia etérica pode penetrar. Saibam mais a respeito das cinco propriedades que distinguem a função extraordinária desse órgão tão singular.

Como ensina a sabedoria clássica, todo processo de desenvolvimento espiritual tem início no coração. Posicionado no centro do sistema humano, ele faz a interligação de todos os órgãos do corpo. Por esse motivo, o coração é o órgão da unidade, é o grande construtor de pontes e um grande prodígio.

É o músculo mais forte do corpo humano. Esse músculo não envelhece como todos os outros músculos. É notável como ele trabalha com autonomia, embora seja um músculo involuntário. Obviamente, o coração pode adoecer, pode ser danificado ou enfraquecer, mas o próprio tecido muscular não envelhece, graças à sua estrutura celular excepcional. E algo realmente notável é que o coração raramente é acometido pelo câncer!

Ele nunca descansa, nunca dorme, nunca para e bate cerca de 70 vezes por minuto, 100.000 vezes por dia – 40 milhões de vezes por ano e cerca de três bilhões de vezes durante uma vida humana média. Ele impulsiona o sangue através de uma malha de vasos sanguíneos que chegam a cerca de 100.000 km de comprimento total.

O coração é tão forte, que impulsiona cerca de 7,5 litros de sangue por minuto através do corpo, com uma força que faria espirrar água para cima por aproximadamente dois metros! Porém, fazendo um cálculo mais exato, essa pressão é muito baixa para o sistema de vasos de 100.000 km de comprimento.

Em primeiro lugar existe a pulsação. É incrível como o sangue se movimenta por si mesmo desde antes da primeira pulsação, embora isso não faça muito sentido. Um exame mais profundo mostra que o coração já começa a se movimentar em espirais num sistema circulatório regular antes de estar suficientemente desenvolvido para ser capaz de bater. A frequência cardíaca sempre se altera. O coração não somente bombeia o sangue, como também modula, dinamiza e cuida da coesão dos órgãos. Em um ritmo de pressão e relaxamento prodigioso, sempre cambiante, o coração provê energia para o homem durante toda a sua vida.

Em segundo lugar, ele é um gerador eletromagnético que produz uma grande variedade de frequências. Nosso coração é o maior e mais forte gerador do corpo. Seu campo eletromagnético pode alcançar 3m de distância do corpo. Cada célula do corpo – e são 100 bilhões (ou seja 10¹²) – é banhada, por assim dizer, pela energia do coração. Ele não só emite energia eletromagnética, como também está em condição de decodificar informações contidas nesses campos eletromagnéticos. Portanto, o coração também é um órgão de percepção.

Em terceiro lugar, o coração é uma glândula endócrina que produz e libera vários hormônios. Por enquanto, já foram identificados cinco deles e outros estão à espera de ser descobertos.

Em quarto lugar, o coração faz parte do sistema nervoso central (60% das células cardíacas são células nervosas) e está diretamente ligado ao cérebro, à amígdala ou ao tálamo, ao hipocampo e ao córtex cerebral (responsável por emoções, percepções sensoriais, solução de problemas, argumentação e aprendizado, memória – não é por acaso que existe a expressão “saber de cor”, ou seja, pelo coração). No fundo, o próprio coração é um cérebro. Blaise Pascal afirmou a esse respeito que … “o coração tem razões que a própria razão desconhece”!

Em quinto lugar, o coração é o órgão da unidade. Ele percebe alegria e felicidade como vivência da unidade, tristeza e ódio como separação e solidão. Assim como o coração é o órgão da unidade, a cabeça é o órgão da separação.

Sabe-se que o cérebro consiste em duas metades: o hemisfério esquerdo e o hemisfério direito. No cérebro, todas as estruturas são duplas, com uma exceção: a pineal, que não é maior do que uma ervilha e está situada no centro do cérebro. E isso faz sentido: afinal, ela é o ponto de contato com o Espírito. Nos dois hemisférios cerebrais ocorrem processos opostos e complementares.

O esquerdo – que, na maioria dos ocidentais é dominante – impulsiona-nos à ação (o que explica nossa tendência a regras, detalhes, organização, mas também a linguagem e a percepção do tempo – na Astrologia, o hemisfério esquerdo está sob a influência de Marte, o planeta do poder e da luta, do ódio e da turbulência e do forte braço direito).

O hemisfério direito do cérebro é responsável pelo ser (aqui nos referimos à consciência do espaço, inteligência, empatia, conhecimento da situação como um todo – sob a influência de Mercúrio, o planeta do pensamento e da inteligência).

O cérebro é um todo polarizado: ele aponta para a “unidade” de dois centros separados, que são como irmãos. Os antigos também chamavam essas duas partes de Caim e Abel. Nesse sentido, também podemos considerar o conflito entre Caim e Abel como o desequilíbrio entre as duas metades do cérebro.

No corpo, também existem outros órgãos em pares: os pulmões, os rins e os órgãos sexuais. Porém esses pares têm sempre a mesma função. O pensamento humano, ao contrário, é polarizado, arbitrário, analítico. Com nosso pensamento e inteligência, somos criadores de um mundo de opostos – e não temos outra escolha.

                         

A cada dia temos de comer o fruto do conhecimento da árvore do bem e do mal. Nosso pensamento raramente une: ele separa, divide. Muitas vezes dizemos que alguém tem “agudeza intelectual”. E essa intelectualidade pode ser cortante, pode ferir…

Todo o nosso processo de desenvolvimento espiritual começa no coração. Ele é o portal entre o átomo original e o sangue, é a porta abençoada através da qual a pura energia etérica divina, que provém do átomo original, pode penetrar no sangue.

O ponto central da doutrina dos rosa-cruzes é que esse átomo-semente espiritual, em meio a tudo, está sempre banhado no mais puro éter divino, é uno com Deus. É o lugar onde o homem pode vivenciar a pura essência crística. E, em virtude de sua elevada vibração, essa essência sempre pode purificar o sangue desde que o homem pelo menos mantenha seu pensamento sintonizado com ela.

Em outras palavras: nosso sangue, que diariamente é sobrecarregado e poluído com toda espécie de impressões e experiências, pode ser purificado no coração através da energia crística, tornando-se assim novamente luz. Por esse motivo é dito que “o sangue de Cristo purifica-nos de todo pecado”.

O sangue consiste substancialmente de água e contém células, glóbulos sanguíneos e substâncias diluídas. Os 10 bilhões de glóbulos passam, em média, 1.200 vezes pelo coração antes de se “sacrificarem” no baço, onde deixam seu núcleo. O ferro que se liberou ficou armazenado no baço – que representa um campo de trabalho alquímico de aproximadamente 3.800 m².

A água é a expressão material do éter, para o qual ela é um transmissor de informação. É que a água – e consequentemente também o sangue – pode captar e acumular a informação e a energia das radiações. No sangue está fixada a essência de todo o nosso estado vital ligado a este campo de vida material: por isso dizemos que o sangue é nossa alma (alma mortal).

A transmissão de informação ou energia está submetida a determinadas condições e é melhor quando a água está em movimento. A água move-se de modo natural em ondas e espirais. Na parede do coração, existem sete camadas de tecido muscular em forma de espiral. Ao contrair-se, o coração gira como no movimento de torcer (também as artérias fazem movimentos giratórios). Com isso, a ponta do coração faz um movimento em forma de lemniscata.

O coração é um órgão sensorial que percebe as energias que nele penetram. O que ele percebe? O sangue contém a essência de todos os órgãos e, desse modo, o coração é informado sobre a condição de cada um deles através da corrente sanguínea. A essência de todas as partes do organismo é reunida no coração, formando um estado de ânimo predominante. Caso ocorra dano em qualquer um dos órgãos, essa informação é transmitida ao sangue. O coração sente isso e converte a informação em determinado estado de ânimo.

No livro A Gnosis Chinesa, J. van Rijckenborgh descreve o coração como o órgão no qual Deus fala em uma contínua sucessão de imagens. Lao Tsé diz: “No centro estão todas as imagens”. Às vezes o coração também é chamado “Universidade de Deus”. Hermes fala dos olhos do coração e também fala dele como “janela para a eternidade”. Faz sentido, pois é no coração que podemos perceber a essência das coisas. Agir com liberdade requer conhecimento, Gnosis e intuição. Intuição é o olhar do coração purificado que se tornou silencioso. Por isso Mestre Eckhart (1260-1328) afirma: “Nada existe em todo o universo que se assemelhe tanto a Deus como a quietude”.

A cada batida do coração, nasce em nós a misteriosa força do silêncio. Através do silêncio, pode ocorrer a cura, a libertação, a reunificação com a vida divina. Esse silêncio “fala” melhor em um coração com motivos puros e desinteressados. “Torna-me altruísta e quieto”, escreveu Brederode. Através do efeito contínuo desse sangue assim transformado que parte do coração, podem se abrir os três centros, até agora fechados, no santuário da cabeça.

Sigamos a linha de pensamento de J. van Rijckenborgh. Então, no coração e na cabeça, desperta o ânimo, como Hermes chama a ligação entre coração e cabeça, e daí o sistema sente intensa tranquilidade. Tem-se uma sensação orgânica e sensorial do misterioso silêncio da natureza primordial:

“Quando, mediante o desapego do eu, estiverdes enobrecidos para isso, dirigi o coração para a Luz e reconhecei-a. Quando a reconhecerdes, vereis os imensos e gloriosos poderes do Verbo Vivente em vós. Vereis e experimentareis no coração uma Luz de poderes incontáveis, um mundo verdadeiramente incomensurável: a Cabeça Áurea. E vereis como o fogo devorador da ordem inferior é cercado e dominado com grande força pela condução direta da própria Luz e da Luz do Verbo que fala em vós. E assim vereis e experimentareis como, por intermédio do poder luminoso da Gnosis que nasceu em vós, a natureza inferior é dissolvida pelo que denominamos transfiguração ou renascimento”. (A Gnosis original egípcia, p. 55)
A aura do coração vai provar isso. ◊
LEMNISCATA
A lemniscata é representada por um número oito deitado. Na Matemática, ela é tida como símbolo do número infinito e, na Filosofia, como símbolo da eternidade.
Por causa da anatomia do coração, especialmente pelos quatro ventrículos e pela sequência específica de suas contrações e pela forma espiralada dos músculos cardíacos, a corrente sanguínea move-se em forma de lemniscata – e, assim, sempre podem ser acolhidas as forças purificadas do átomo original. A anatomia do coração ilustra muito bem isso, pois as quatro câmaras formam uma estrutura de cruz. Existe outra conexão importante entre o coração e o pulmão, que são dois órgãos submetidos a um ritmo. O pulmão está mais ligado com a consciência comum; o coração, com a consciência superior. O ritmo do pulmão pode ser influenciado pela consciência. Em pessoas saudáveis, a relação entre o ritmo do pulmão e o do coração é exatamente de um para quatro. Isso quer dizer que, durante a respiração, o coração bate quatro vezes. Entre a inspiração e a expiração e vice-versa há sempre uma pausa, um intervalo. O mesmo se dá com o coração: entre a contração e a descontração dos ventrículos existe uma pausa de 1/10 de segundo, durante a qual é produzida a energia para a próxima pulsação. Em um nível mais elevado, essas pausas são, certamente, a condição básica para a capacidade de percepção do coração. Para cada forma de percepção é necessário um momento de silêncio.

                                                                                                                                               

Pentagrama no 3 / 2017

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